Reprodução‘‘Antes de morrer,
Bispo do Rosário
havia começado a
construir uma escada
em direção ao céu’’Fuçador incorrigível, o meu amigo José Castello, sempre impagável em seu espaço das terças-feiras no ‘‘O Estado de S. Paulo’’, não teve dúvidas e revelou nacionalmente a existência, em Curitiba, de uma sociedade (secreta) de admiradores da obra do artista plástico Arthur Bispo do Rosário, falecido em 1989.
Como sabemos, Bispo do Rosário, ao longo de seus quase 80 anos, desafiou a ciência e a arte, a um só tempo: esquizofrênico, interno da Colônia Juliano Moreyra, no Rio, produziu uma ‘‘proposta do ver’’, se podemos chamar assim, das mais intrigantes deste século no mofino panorama das artes plásticas brasílicas. Afirmação sublimatória perfeita - salvava-se, pela arte, de si mesmo.
In-sanas incorporações do real em dobras, em seus bordados obsessivos, o artista como que tecia por entre as fibras de toscos sacos de estopa a arte da ilusão mais desiludida: frases, fractais, a suspensão no vácuo de uma grafia que intentava dizer, da Loucura, o seu dizer mais bom. Delicadezas, humanidades, a asa da mosca que explode inchada de tarde, cabeças de cães, uma saudade profunda para além de Goiás, um copo de veneno. É só por seu teor de grito & hino que a poesia de Arthur Bispo do Rosário agride e, se deixas, escarra sobre vossa culpa.
Colocando-me em contato com a sociedade Reino Azul de Reverência & Adoração do Artista Plástico Arthur Bispo do Rosário, numa das cidades-satélites de Curitiba, José Castello como que me desvelou, não sem generosidade, certo segredo encantado: os membros da ‘‘seita’’ bispiana, ainda escassos - nem dez, em sua totalidade - não acreditam na morte. Na morte mesmo, esta de velório, caixão e tumba. Para A.L.T., um dos gurus da sociedade, o cadáver reintegra-se ao corpo fluídico da matéria, retomando a antiga conformação, só que em outras galáxias, mas com os mesmos traços físicos e quase sempre a mesma atividade.
Para eles, Bispo do Rosário segue, em outra dimensão, rebordando os seus bordados desconcertantes, numa instância em que o corpo já não necessita mais de água ou comida, sexo ou nova morte, bastando-se a si próprio, autogestivo, realimentando-se do seu próprio ‘‘fazer’’, ou seja, de sua própria poesia, agora sim, imortal de uma imortalidade triunfante e toda própria.
A. L. T., escultor em madeira, é um rapaz mofino e quase preto, e revela coisas súbitas, no meio da conversa mais burocrática como, por exemplo, que antes de morrer, Bispo do Rosário havia começado a construir uma escada, em direção ao céu, feita de barbantes e velhos fios de carretel. Perguntado se agora, em outra dimensão, o artista prossegue com a escada, a resposta vem afirmativa, apenas com o detalhe curiosíssimo - de que, agora sim, ela tem uma razão e um propósito - Bispo do Rosário possui toda sua imortalidade para chegar a Deus.
São em quase 30 cadernos espirais que a Reino Azul anota o que supõe ser os sonhos ora sonhados por Bispo do Rosário reintegrado ao ‘‘fluido cósmico’’. Uma que espécie de ‘‘ata’’, ao final de reuniões em que alguns dos membros, nem todos, contam o que, também pela via do sonho, souberam dos sonhos do artista e paradigma.
A.L.T., depois de muita insistência, acaba concedendo revelar alguns dos sonhos de Bispo do Rosário, mantidos a sete chaves e de acesso exclusivo aos ‘‘sacerdotes’’ da Reino Azul.
Este, por exemplo, que não tem nem duas semanas, fresco e ardente como uma papoula bordada por Bispo do Rosário no cavanhaque do Cristo: trabalhando em sua escada-do-céu, ele foi visitado por um anjo, mais vermelho que o sangue e mais feliz que os passarinhos de todo o firmamento, o qual foi logo perguntando por que Bispo não trançava a escada com mais rapidez para em menor tempo chegar a Deus. Ao que Bispo respondeu, pendurado num fio de linha: ‘‘É devagarzinho o caminho de Deus. Um ponto e já é toda a Virgem Maria e outro ponto já é São José.’
Réplicas perfeitas de alguns dos mais importantes trabalhos do artista também podem ser vistas, na pequena casa de madeira onde está instalada a ‘‘sociedade’’: copiaram, à perfeição, os ‘‘delírios medidos’’ de Arthur Bispo do Rosário, em estopas, panos de prato e de chão. Em todos eles, a ‘‘caligrafia no limite’’ vem de novo nos dizer que a arte do olhar é bem mais que um sofá, um quadro e uma parede.
José Castello, ora em viagem ao Marrocos, não me perdoará confessar, antes dele, os sonhos de Bispo do Rosário, em encardidos cadernos, inteiramente sonhados à mão.

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