Wilson Bueno
Pouca gente percebeu, em meio à avalancha de notícias sobre o crack das bolsas internacionais, nas últimas semanas, o anúncio feito pela Nasa, do lançamento de um telescópio de nova geração, previsto para orbitar a terra dos homens, já em 2001. É uma bela e gozosa notícia para gente como eu ou você, alheado leitor, insistentes em olhar o céu que daqui se vê com um gosto bem mais que astrônomo.
Avaliado em 500 milhões de dólares, apesar de um terço mais barato do que o pioneiro Hubble, o novo telescópio espacial carregará sensores capazes de detectar calores & humores estelares, em vez de rastrear a luz visível como é de praxe entre instrumentos do gênero. Desde a luneta de Leonardo da Vinci, outro explorador contumaz dos mistérios do céu, e muito antes dela, não ocorria a nós, os humanos, que um dia pudéssemos ter uma que espécie de termômetro para medir a temperatura dos corpos celestes, suas febres, movimentos e desassossegos.
O poeta antigo já reconhecia, na cruciante curiosidade humana pelo universo, a busca da natureza de Deus. Por sua indizível magnitude, o Cosmos foi perenamente identificado com a Inteligência Superior que, um dia, Kant chamou de Ser. Como ser sem existir é equação que não fecha, nas noites angustiantes de Königsberg o filósofo se perguntava, desde a sua solidão, o que deveria haver (existir, de novo...) para além da aparência imediata das coisas.
Certo Kant traduziu tudo isso em complexos tratados de alta filosofia, o que, óbvio, não é o meu nem o vosso caso, curioso leitor, ainda que não descuidemos de perguntar, assíduos e insistentes indagadores dos mistérios do mundo, o que fazem os pássaros quando chove, de que natureza a dança das abelhas sinalizando a colméia para novo campo em flor e como é que, tarde da noite, a laranja verde adoça o seu sumo e amarela em ouro a casca num silêncio cheio de ruídos?
Ao tempo da eclosão do surrealismo na França, não foram poucos os artistas, sobretudo os devotados às artes plásticas, a passarem noites inteiras, o ouvido colado ao tronco das árvores, muitos deles munidos de estetoscópios, obsessivos em flagrar o rumor da seiva nos caules. O anotador daqueles dias parisienses, tão febris quanto desconcertantes, revela ainda que nunca ninguém conseguiu ouvir o que, segundo ele, era só a natureza profunda do silêncio.
Estes e outros obcecados curiosos, estivessem hoje, entre nós, seguramente não perderiam seu tempo às voltas com seivas ou caules, mesmo porque o mundo fica, a cada dia, menos interessante e mais devassado, e não há graça alguma, para nós, os modernos, sabermos, por exemplo, se dentro dos troncos, as árvores, quem sabe, falem.
Escutar rumor de árvores, para quê, se não muito distante de nós, solto no espaço, um colossal engenho feito de aço e espelhos, movido por energia de última geração, fotografa com a exatidão de um raio-X, o nascimento de estrelas, a expansão do universo, o estilhaço de meteoros sobre planetas nunca dantes imaginados?
O telescópio a ser lançado em 2001, por exemplo, poderá ver o surgimento de corpos celestes por meio da poeira cósmica enquanto o Hubble nos dá notícias de eventos que aconteceram, no mínimo, há alguns milhões de anos-luz e perscruta o Gênese imemorial quando ainda não éramos sequer vapor de estrelas, só um rastro de gases perdidos na noite primeira do Universo.
Flagrar, no coração do fruto a hora mesma da paciente gestação de seu sumo, é poesia mínima, e quase desengraçada, se pensarmos que, ainda o Hubble, apenas num exemplo, foi capaz, em poucos anos, desde o seu lançamento, de fotografar centenas de estrelas azuis organizadas numa nuvem diamante, algumas delas com mais de 12 bilhões de anos, como nos dão conta os boletins noticiosos.
Segundo Robert Williams, diretor do Space Telescope Science Institute, em entrevista recente, um telescópio espacial como o Hubble já fez mais pelo Conhecimento, em sua curta existência, do que todo o saber astronômico acumulado até aqui pela humanidade. Melhor: ampliou a visão do homem para além do tempo e do espaço.
Para que mistérios?, perguntaria o filósofo de Königsberg, olhando terrível e desolado para o céu.





