Wilson Bueno
Ilustração : Ivo AkioEle não parecia
o gênio que era,
recriador de mundos memoráveisJackson Ribeiro morreu. O que faz um dos maiores artistas plásticos, deste século, no Brasil, morrer a sua morte humilde em Curitiba e aqui ser enterrado, mendigo, indigente, esquecido? Que tenha escolhido a margem, isto não se discute, mas se nela foi uma fulgurância de brasa viva ao sol, porque morre assim a sua morte horrível?
Não adianta espernear: Jackson Ribeiro morre no domingo melancólico a sua morte sempre adiada.
Da chamada geração neoconcreta que reuniu no Rio, um tempo, o melhor do fazer & refletir a grande arte de nosso tempo, Jackson era bem o príncipe e o bruxo solene que conseguiu, caco a caco, impor à pasmaceira brasílica, através dos seus objetos - sólidos em madeira que eram dele a maior marca - uma pedagogia do olhar, esta coisa de ordinário deixada de lado. Gênio, foi capaz de multiplicar, ao infinito, a geometria do ver nas desconcertantes peças que tirava do vazio como a um merlim prodigioso.
Primeiro, as brutas esculturas de ferro que entanto cantavam domadas por suas grandes mãos que, um dia, se cansaram delas. Mas logo o flagramos, gênio, ainda uma vez, trabalhando no que chamava os seus módulos-óvulos (sólidos em madeira de até um milímetro ), quebra-cabeças por ele concebidos para desafinar a arte de ver, acrescentando-a, quem sabe, de mais humanidade e delicadeza, sem perder o rigor com que um fabro olha as coisas do mundo.
Tarde da noite, me lembro, bêbados de dois dias, andando o bairro do Boqueirão, e retornando ao atelier só porque Jackson Ribeiro lembrara de me mostrar, às duas horas da madrugada, uma que luz refletida entre os interstícios de seus óvulos. Uma torrente deles ovulada no chão... E, impossível esquecer: a sua voz nordestina, rouca de cigarro e cerveja, decodificando, um a um, guia paciente do paraíso-do-ver, o que, para além do lúdico, reinstaurava o real na sala modesta.
Mais de uma vez, amei dele a coragem essencial e o desassombro, e, de certo modo esquivo, invejava em Jackson a audácia com que, quando queria, ele se matava. Sem reclamar depois, sem culpa ou ressentimento, quase como se não houvesse depois. Como se tudo, druida ou búdico, fosse antes do depois, num agora contínuo e fluídico, como fluídica, sabemos, é a vida, o rio de Heródoto, o olho com que você, paciente leitor, me articula agora e me viabiliza.
Jackson Ribeiro, visto da superfície, não parecia o gênio que era, recriador de mundos memoráveis, decifrador da transfinita geometria de seus ovnis estrelados. Simples, quase simplório às vezes, sacana, febril e desaforado, só bebia cachaça e só fumava cigarros de papel, cheios do fumo mais forte e mais ordinário. Amava as mulheres com uma compulsão obsessiva e diligente, o que era quase um paradoxo. Drogava-se de um tudo, até de insônia, sexo e fome, este tempo, drogava-se o meu amigo Jackson Ribeiro. Sua cama, um colchão; e as confissões de Santo Agostinho, na cabeceira. Tinha tamanho amor à poesia dos livros, que anotava cadernos com ela e com ela se emocionava.
De novo pergunto e a madrugada sóbria do arrabalde não responde: como pode um artista que expôs de Paris a Milão, frequentando o circuito restrito das galerias das principais capitais do mundo, morrer em Curitiba, numa solidão que dá nojo? Descartável, quase inútil, o que há é um corpo e a cova rasa. Não valeu o luxo dos incêndios de viver? Que mais não seja, deixam de contar as conversas acesas das noites sem Deus? Onde agora, sob o sujo barro do cemitério suburbano, a graça mágica e bailarina com que, entre nós, viveu e criou? No não-sentido do não?
Morador da periferia de Curitiba, Jackson Ribeiro garantia a subvida fazendo e vendendo telas. Isto mesmo, leitor, telas em branco - as mais safas, as de maior apuro, pensadas até, telas em branco com que pagava o mercado, o bar, a luz e o telefone. Há algum tempo, doente, não trabalhava mais e vivia da caridade alheia.
Agora que Jackson Ribeiro morreu, ele que foi o guru de dois outros mortos notáveis - Hélio Oiticica e Torquato Neto - imagino coisas, e puxo lá atrás, um dia: moldureiro, o artista imagina uma moldura de tal modo perfeita que seja só uma tela com um furo no meio.
Outra vez, depois de muitas viagens filosofia adentro, me diz, entre um e outro cigarro:- Um dia eu vou chegar a um módulo que, mais que óvulo, seja só uma idéia.
No domingo chuvoso de Curitiba, agora sim, o artista Jackson Ribeiro dá a obra - e os trâmites - por findos.





