A última edição do Archaeology Today que um amigo paulistano, em viagem a Londres, me faz chegar às mãos, sabedor do interesse que me suscitam estas coisas desusadas, traz em sua nobre página 3, nada menos do que uma fábula.
O fato, sabemos os jornalistas, é, no mínimo, editorialmente intrigante, antes de se constituir em gozosa audácia para um jornal centenário. Mais ainda se considerarmos que a fábula foi transcrita, linha por linha - ‘‘codificada’’ que estava em perfeitos caracteres árabes -de uma grande pedra descoberta, entre outras preciosidades, na recente ampliação das linhas do metrô romano.
Como a pedra foi parar sob o chão dos subúrbios de Roma é outro mistério a desafiar arqueólogos das mais diversas escolas e estilos, sobretudo se tomarmos a arqueologia como uma ciência exata o que, sabemos, é matéria polêmica entre arqueólogos de renome. Defendem os mais audaciosos que, do mesmo modo que as matemáticas (no plural, como convém), a arqueologia é tão exata quanto o (i)mensurável infinito.
E este seria outro assunto, não tratasse, a fábula publicada no mensário londrino, do mesmo tema, ainda que pela via da paráfrase e da metáfora, da mais descarada parábola, baixo este gosto humano de inventar estórias para revelar verdades. E, nisto, curioso leitor, a fábula árabe abre-se em mil entendimentos e outros tantos mil significados.
Inicia, por exemplo, lembrando que se deseja registrar ali uma colossal mentira: ‘‘Tudo o que aqui se grava (‘‘engrave’’, no inglês do jornal) não passa de acontecimento inventado, não veraz (‘‘unutterable’’, que em inglês também significa ‘‘inexprimível’’) mas que se dispõe a revelar, de modo inequívoco (‘‘irrefutable’’) um segredo milenar’’.
Antes, gentil leitor, que continue a fábula, ‘‘fantástica’’ em amplos sentidos, convém lembrar que os arqueólogos conseguiram descobrir a idade da pedra encontrada em Roma, mas não há meios de ‘‘datar’’ o que se escreveu nela, isto é, a ‘‘idade’’ dos caracteres nela inscritos.
Seria curioso não fosse trágico para a comunidade científica: o texto da fábula, se o podemos chamar assim, parece brincar com o leitor de todos os tempos - dá inúmeras pistas de sua idade, mas as confunde todas em nenhuma, alterando de propósito as possíveis chaves que, ao final e ao cabo, nos revelariam o seu tempo cá em nosso gasto planeta, velho de guerra.
Ao anunciar que tudo não passa da mais crassa fraude, a fábula, que também não podemos afirmar com exatidão se árabe, a não ser que escrita nos belos caracteres ‘‘kufic’’, insinua, por exemplo, que o Colosso de Rodes (lembram-se?, uma das sete maravilhas do mundo antigo) ‘‘lá está, de pé, desafiando o tempo (challenging the time) do mesmo modo que o escriba, gravando a pedra, também desafia o tempo, só que o tempo dos relógios’’.
Ponto no vácuo, matéria em suspense, estes ‘‘relógios’’ aí, assinala um dos comentadores do Archeology Today, podem ser entendidos de muitas maneiras - desde o ‘‘tempo’’ das coisas pré-islâmicas até as familiares engenhocas que nos limitam a vida. Sem uma palavra mais precisa, em inglês, o ‘‘transcritor’’ da pedra preferiu mesmo a simples e quase prosaica clock. Se não sabiam do tempo andando nas engrenagens de nossos atuais relógios, por certo intuíam, lembra o comentador, a invenção deles, um dia. Será?
A fábula, por fim, conta, pelo escriba, uma estória sublime: que depois de viajar todo aquele deserto (sem dizer o qual) e ainda, todos os desertos do mundo, ao califa Al-Rachiman foi dado penetrar a intimidade profunda da Acrópole grega e debaixo de uma pedra que lhe falseou sob os pés descalços, descobriu que esta era nada menos do que a sua lousa tumular, na qual estavam inscritas a data de seu nascimento e a de sua morte. Só que a morte já ocorrera há muitíssimos anos, mais de mil, e ‘‘se pegando todo com as mãos, Al-Rachiman só então percebeu que a longa caminhada pelos desertos, até a Acrópole, começara naquele distante dia de sua morte’’. Só que, de novo, a fábula escamoteia - e não nos dá data alguma.
Freud, arqueólogo amador, comparava a Arqueologia às suas buscas do insconsciente profundo - quando pensava tocar, depois de ingentes exercícios, o ouro da descoberta mais rara este se punha como só o começo de uma nova via estrelada.
Sem desmerecer a busca nunca, antes elevando-a ao dom de engendrar aventura ainda mais impetuosa.

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