Wilson Bueno
Arquivo FolhaNão, senhores, este vosso escriba não é o responsável pela recusa do botânico e mineralogista italiano, Alessandro Recchi, em cancelar, na última hora, a visita que faria à cidade de Curitiba, conforme saiu publicado na coluna do meu amigo José Castello, há algumas semanas, em O Estado de S. Paulo.
Não sabia eu e nem o sabia Castello como o cientista napolitano confundiu-me o nome e o ofício com o do engenheiro Nilson Ueno, chegando a enviar irado telegrama ao meu endereço onde se lia a seguinte justificativa, em malíssimo português e, creio, também péssimo italiano: Guarda: no sigo más. Fue enganato: se a ôpera no ê de arame, no importa niente .
Calma, impaciente leitor, me explico: visitando Buenos Aires, recentemente, por ocasião de um congresso em sua especialidade, Alessandro Recchi jantou com o geólogo curitibano Nilson Ueno que lhe falou maravilhas de um teatro chamado Ópera de Arame e que era (depois do imbróglio ainda é, Castello?) uma das principais atrações turísticas de Curitiba.
Na alegria sempre confusa com que estrangeiros, quando se encontram, confraternizam, o dr. Ueno se esqueceu de deixar com Recchi o endereço e foi logo escapando, pequeno, imperceptível, japonês, para o hotel, com o receio igualmente nipônico de se constituir desmancha-prazeres em ágape tão cosmopolita, animado por convivas das mais diversas partes do mundo.
Alguém, (não sabemos quem, né, Castello?) diante da aflição do italiano Recchi, não hesitou em passar, num guardanapo de papel, o endereço do único Nilson Ueno que conhecia, e que era também o único endereço completo de alguém em Curitiba que possuía na agenda: com direito a CEP e esquina, o número da casa modesta que me vê passar a vida cá neste vale de lágrimas e, junto com o endereço, a possibilidade concreta de salvar Alessandro Recchi de si mesmo, dizem.
Para quem não sabe, e não se esqueça de registrar aqui, ele é, na Itália, mal comparando, o equivalente, digamos, a Cesar Lattes no Brasil. Uma sumidade, vaca sagrada da botânica e da mineralogia, com trabalhos publicados nas mais importantes revistas científicas de todo o mundo. Comunicando aos colegas brasileiros a iminente viagem ao Brasil, mais precisamente a Curitiba, logo a notícia ganhou as frívolas manchetes das melhores colunas sociais.
Até aí, ao menos publicamente, não entro eu e nem o meu quase homônimo Nilson Ueno, fato que acaba acontecendo quando, não me localizando, e sabendo de mim apenas por um vago amigo, (de mim, não, de meu quase xará Ueno) Recchi obtém o telefone de José Castello. É o único amigo do Bueno em Curitiba..., dizem informou o vago amigo. O que já forma (nest pas, Castello?) uma curiosa inversão, pois todos sabem que sou eu - por enquanto -, o que muito me honra, o único amigo do jornalista e escritor José Castello em Curitiba, e não o contrário. Coisas de vago amigo, hélas...
Destemperado, Recchi desabafa com Castello, no seu napolitano defenestrado e que Castello, viajante, globe trotter, entendeu inteiramente: tinha sido enganado em Buenos Aires: a Ópera de Arame era de arame só no nome, assim como o colossal Buda de Vento, em Pequim, de vento não era, ê fatto!!!, mas da melhor pedra da Manchúria. Pedra, dizem, é a coisa que o Recchi mais entende no mundo.
Cancelava a viagem e contava em pormenores, ao Castello, as minúcias de Ueno a respeito de nossa Ópera, um arrojo arquitetônico ainda que gelada no inverno e abafadíssima no verão, o que fez Recchi concluir que se a Ópera era assim classificada, apesar de terrivelmente desconfortável, isto se devia única e exclusivamente ao material de que era feita. Arame.
Não houve dúvida: em sua crônica de terça-feira no Estadão, José Castello compôs mais um de seus imaginosos textos, relatando o entrevero entre mim e o italiano. Com a delícia galhofeira e às vezes pânica, invariavelmente ilusionista, que é, dele, a sua escritura.
Como o único amigo que possui em Curitiba seja este vosso escriba, - gritante limitação, convenhamos - José Castello em nenhum momento pensou que pudesse existir em toda Santa Cidade da Luz dos Pinhais, alguém além do que Illssoueno - como repetia, na ligação plena de chiados, o Recchi, ao vivo e a cores: sui nominata ê Illsso...Illssoueno...
Ainda não descobrimos se em dialeto napolitano.





