Wilson Bueno
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Wilson Bueno
Koans
Retorno aos koans, não sem - procedimento inútil - tentar definir deles a sina e o método, a des-razão mais explícita: koans são mini-parábolas, micro-estórias, racontos com que o zen budismo procura, através fatigados exercícios, chegar à essência - ao satori, à iluminação que poderá fazer de um homem bem mais do que um homem e o sempre inenarrável horror de suas circunstâncias.
Nada têm em comum com as fábulas contadas pelo Cristo, nem com a vida (exemplar) de Mohamed, o profeta de Alá, limitando-se a servir como instrumento - ou não - desta aproximação delicada e silenciosa, que é a aproximação do em-si consigo mesmo. Juntar os pedaços, reunir os fragmentos de nossa vida quase sempre aturdida, compor um mosaico de espelhos e dúvidas, de tal modo que uns e outras sejam a cartografia de nosso eu mais profundo - ali onde brilha, intenso, o que Jung chamava de o arquétipo central da ordem e que as religiões de todos os tempos preferiram chamar de espírito.
Obras abertas, os koans são pequenas grandes piadas com que mestres e discípulos travam uma pedagogia para além de toda lógica, mas muito perto da razão essencial que nos norteia o jogo de viver. Aliás, este o objetivo do Buda, se objetivo houvesse no budismo: flagrar a carne aérea de nosso devir...
Para instaurar, cá no terceiro planeta depois do Sol, uma só fração de segundo mas que seja tão plena e tão intensa que apenas ela, tal humílima fração de segundo, possa constituir já toda a eternidade.
Quem se habilita?
O LUGAR DO BUDA
Entre os monges pedintes dos Himalaias viveu um yógui apelidado Vanshu. Ainda que, desde a Índia, onde nascera, buscasse o Buda, nunca o havia encontrado. Estar entre os monges pedintes era talvez a sua última chance de topar com o Desperto nas dobras de seu coração perseguidor.
Noites e dias deambulando, nômade, pedinte, deitando em cacos de vidro e, por puro espetáculo, vertendo sangue pelas narinas, a Vanshu ainda assim não lhe era dado um vislumbre que fosse daquilo que os monges pedintes chamavam de a visão do Absoluto.
Descrente já, Vanshu foi queixar-se a um monge ermitão que vivia no oco de uma árvore, no meio da floresta:
- Mestre, que faço para encontrar o Buda?
- O Buda está em toda a parte. Por que Vanshu ainda não o encontrou?
- Ora, mestre, só tenho feito isto, desde o mosteiro de Jianshipur, na Índia, onde entrei ainda criança...
- E você não encontrou o Buda?
- Não, jamais, mestre!
- E por que é que você está sempre a dois palmos do chão?
- Ora, levitar, para mim, é o de menos... Rapazinho ainda, na Índia, já aprendera a levitar...
- Não, eu pergunto, por que é que, em todo este tempo, você nunca olhou para os dois palmos abaixo de seus pés? Olha só o Buda aí rindo debaixo de seu dedão...
OS OFÍCIOS DA
MEMÓRIA
O jovem monge, estudante de Plotino e Aristóteles, apaixonado por Spinoza, membro ativo dos círculos eruditos do Nepal, anda quinze dias, a pé, por difíceis caminhos, para entrevistar-se com um mestre que, diziam, decorara todos os livros da vasta e complexa filosofia grega. Um feito não tão incomum entre monges, capazes de guardar, de cabeça, enciclopédias inteiras. Mas o que distinguia o mestre em questão era ter-se convertido num dicionário vivo dos gregos.
Encontrando-o na confusa biblioteca de um mosteiro, no caminho para Sing Jiin, na China, o jovem monge vai direto ao assunto:
- Mestre, andei centenas de quilômetros,estou com os pés em carne viva, mas acho que valeu a pena encontrá-lo. Pretendo graduar-me em filosofia grega e só o senhor poderá me dirimir algumas dúvidas... Ou, quem sabe, franquear-me a sua memória a respeito, por exemplo, dos pré-socráticos...
- Claro, estou ao seu inteiro dispor. Em que posso lhe ser útil?
- Preciso, por exemplo, de algumas datas de nascimento e morte de alguns filósofos. Mas antes disso gostaria de matar minha curiosidade, e acho que mereço isto: como o senhor conseguiu armazenar no cérebro toda a filosofia grega?
- Simples, meu filho: esquecendo tudo de uma vez
- Não entendo, mestre. Decididamente não entendo.
- Não é preciso entender; basta esquecer tudo de uma vez.
- Continuo na mais crassa ignorância...
- Aí, meu filho, o lugar do saber... Agora você se lembra.
- De quê?
- De que esqueceu tudo.





