Ivo AkioNos almoços de domingo, Bioy destaca que ouviu de Borges absurdos notáveisDe todos os livros resenhados por Jorge Luis Borges, nenhum melhor e nem mais sacado do que o livro que trata das confissões de um comedor de ópio, do infernal Thomas De Quincey. Enfocando temas de que o livro do inglês não trata; vivendo, ele mesmo, Borges, os céus e os abismos do ópio, caído nele como numa vala, ‘‘tomado’’ de ficção deslavada sobre um relato público, o gênio argentino vira de cabeça para baixo as resenhas e a história das resenhas de obras literárias.
E qual das resenhas sobre este livro, por ele mesmo incessantemente resenhado, é, digamos, a ‘‘verdadeira’’ resenha sobre a experiência - terminal e radicalizada - de De Quincey jornada adentro ao coração dos opióides, chamados, num verso antológico, de ‘‘le champignon d’insomnie’’ (o cogumelo da insônia), por outro dependente, agônico e enfeitiçado, o francês, contemporâneo de Baudelaire, e infinitamente menos conhecido que este, Lisieux de Quentin? Dentre as várias versões sobre a pérola textual de De Quincey, a que mais me apaixona é aquela em que Borges põe em inglês o sonho do ensaísta terrível de ‘‘O Assassinato Como Uma Obra de Arte’’, sonhando com ‘‘a so far land/Argentine/ full of devils and angels’’ ( a distante Argentina cheia de demos e de anjos ).
Claro, inocente leitor, De Quincey não escreveu nunca as citadas linhas mas foi como se as tivesse escrito, pela via da ficção borgiana, que ‘‘borrava’’, por assim dizer, todas as fronteiras, todos os gêneros - sobrando pelas beiradas a invenção (legítima, why not?) - numa simples resenha para ‘‘Sur’’ ou destinada ao obscuro boletim ‘‘Letters and Friends’’, editado em Londres, de 1948 a 1953, por Guido Angeli, um italiano meio psicótico e que foi amigo de Borges por toda a vida.
Nas memórias de Bioy Casares, este delicia-se com revelar o quanto para Jorge Luis Borges não o interessava a realidade, o real, o espaço palpável em que, provisórios, nos mexemos cá neste vale de lágrimas; não, para ele, o importante era o ‘‘fake’’, a fraude, o jogo, o mágico que há de morar sempre e indiscutivelmente na ficção, a insuperável febre humana de relatos e estórias. Nos almoços de domingo, em Palermo, Bioy destaca que, mais de uma vez, atento e muito sério, ouviu de Borges absurdos notáveis. Era uma máquina de inventar coisas, fatos, nomes, datas.
Por esta via, salvava-se, de certo salvava-se, do real e da carne inóspita de sua ‘‘fixidez’’. O real, sabemos, supremo paradoxo, desmente o ‘‘devir’’, esta ‘‘incessância’’ e é nela que vige, sutil leitor, a poesia, aí a sua morada e chama, o seu gozo e glória, o lugar do que quase não há, o lugar do ‘‘ilusório’’, o nowhere, isto é, o now here ( o não-lugar/o aqui e agora)... Borges como que moldou o mundo à sua maneira, tornando-o, para si próprio, e por via de consequência, para seus leitores, melhor e mais interessante.
De Quincey narra, sob o poder do ópio, um céu ‘‘absurdamente’’ azul que aos poucos vai ficando vermelho e daí passa logo a verde, a um destes verdes profundos e que são como que a ‘‘alma de Deus’’. Borges, na resenha, chama a atenção para o nenhum ‘‘cromatismo’’ na experiência de De Quincey com a ‘‘Papaver Somniferum’’ e ri-se de seu ateísmo que qualifica como ‘‘la miseria de una alma enferma’’. Agnóstico, Borges era quase um crente, um budista, se quiseremos ousar, e deplorava a sinistra concepção que faz um homem negar, peremptório, a Deus.
Desdizer De Quincey, ocupação de pura delícia, significava reinventar, no coração mesmo da ‘‘crítica’’, atividade de ordinário exercida por burocratas obtusos e professores mal-amados, nova variação sobre o mesmo tema, acrescentando, de resto, ao patrimônio textual do livro, novas razões, milagres inauditos, inolvidáveis surpresas. Borgianos xiitas chegam a admitir que o livro de De Quincey nunca existiu, não passando de mais uma das fabulações do bruxo argentino. O que é, convenhamos, um exagero, com o agravante de ser um exagero apologético.
Óbvio que ‘‘As Confissões de um Comedor de Ópio’’ consta da rica bibliografia quencyniana, há referências e datas, ainda que não haja, em todo o mundo, como (bem) lembrava Borges, nenhuma prova concreta de que tenha sido mesmo escrita por De Quincey ou de que a edição em ‘‘garamonts perfeitos’’, publicada em Londres, em 1821, seja igualmente a edição príncipe da obra.
Y se ya hubiera en alemán? - indaga, intrigante e pertinente, o poeta argentino.
Como um jogo de jogar.

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