Wilson Bueno
Conta Longfellow, num texto notável, que há muitos e muitos anos atrás, houve na antiga China, um poeta de tal modo devotado ao Buda, que queria saber, do Bodhisatva, a essência mais audaz - a que chegasse ao osso, ao sopro - up to the bones and blasts... No espelhado rosto de um monge (in his mirrored face), o Desperto lhe respondeu com um desafio - daquele dia em diante, todo poema brotado de seu pincel teria que ser anônimo, sem autoria ou assinatura, não deixando de trazer, contudo, expressos em cada verso, os tiques e ademanes do poeta, a alta marca da qual não se dissocia jamais autor e obra. Em três palavras: o seu estilo.
Uma noite dessas, surpreendido por uma rima, pode que o poeta tropeçasse no céu...
A prosa de Longfellow, de uma delicadeza que não consegue trair o seu modo de narrar, feito uma daquelas tias de antigamente, exímias no era uma vez, não nos dá o final da história chinesa, mesmo porque surpreendentemente, ou por isso mesmo, morreria alguns dias depois, no duro inverno de 1882, em Cambridge, mas é quase certo que o poeta da história não ficou sem resposta do Iluminado.
Entre os estudantes de Oxford, e também de Cambridge, desta época, relata a crônica literária, um dos jogos de salão destinados a preencher o ócio, símbolo de status intelectual de oxfordianos e assemelhados era justamente completar a história chinesa de Longfellow - para uns, o poeta não conseguira mais poetar; para outros, não só conseguira como se tornara um dos mais expressivos poetas de toda a China, e, para outros ainda, nem poeta nem poema - o Buda lhe faria ver que mesmo a anonimidade guarda em si a vaidade mais devassa, e continuaria lhe negando a essência.
Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade - alerta, terrível, o Eclesiaste, este anti-livro bíblico.
A tradição judaico-cristã, parece, mais fecha que propõe, mais conclui que pergunta e mais condena que perdoa, ao contrário do Buda e de Longfellow, o poeta dos versos clássicos e torturados de Angeline.
A história (chinesa) interrompida é o simulacro perfeito da dúvida búdica que, ao final e ao cabo, dúvida nenhuma é, posto que aberta a um mar de outras histórias que conferem a ela, à história principal, um devir constante e mutável, ainda que sempre e sempre a mesma história, feito o rio de Heródoto ou a prece a Vishnu do Bhagavad Gita, no círculo terceiro das reencarnações.
Longfellow não concluiu o seu raconto virtuoso de propósito. Não há nada mais intrigante na literatura de língua inglesa do que este pequeno texto, de não mais que 1.500 palavras, que narra a lenda chinesa, com um fascínio pela tessitura da escrita igual quem borda a fios de ouro um lençol de linho. Longfellow é assim sempre e olha as coisas enfeitiçadas.
E não faz muito tempo, acho que em fins de 93, um grupo de estudantes do Departamento de Língua e Literatura Anglo-Saxônicas, da Universidade de Columbia, em Nova York, se encarregou de uma suprema blasfêmia: concluir, por Longfellow, o apólogo emblemático do Buda e do Poeta. Levianos na proposição em si, pelo que isto peca contra a doutrina do Grande Desperto, ainda mais o seriam ao piratear o imaginário de Longfellow, um poeta (e prosador) em todos os sentidos inimitável. Ao contrário dos oxfordianos do século XIX onde a história, jamais escrita, prosseguiria desde que multiplicada, isto é, as mil e uma contrafaces de história alguma. Como um jogo de jogar.
De todo modo, o final conferido à pequena grande fábula do vate americano, pelos estudantes, merece registro, senão pelo que autentica a permanência do poeta romântico ( 1807-1882) - admiração fervorosa, entre outros, de Borges e de Italo Calvino - também pelo que decifra e traduz deste nosso inócuo final de milênio - onde o fast food não é só a refeição ligeira à beira do balcão dos Macs da vida, mas parece também contamina o espírito de uma época.
Para eles, os estudantes de Columbia, o Poeta discute com o Buda a impraticabilidade de ser anônimo sem perder a alma por inteiro, e como o Buda esteja num dia feliz, dá-lhe o segredo de graça. A perseguida essência passa a ser esta mesma - nunca saia de vosso nome...
Bons tempos aqueles em que se morria só para deixar uma história incompleta.





