Cesar AugustoFaz cinco anos que Aramis Millarch morreu. Jornalista, produtor musical, pesquisador, crítico de espetáculos, o seu talento numeroso é destas coisas que, sem elas, o ambiente cultural já em si morno da província, fica ainda mais pálido. Desde a sua quase inexpugnável trincheira, a coluna ‘‘Tablóide’’, em ‘‘O Estado do Paranᒒ, de onde, por décadas, cutucou-nos a todos com o verbo afiado, Millarch, acima de todo o folclore, nos deixa o legado de um trabalho ainda hoje vital e necessário.
Agora, o filho, Francisco Millarch, realiza um projeto à altura da memória do pai: é o ‘‘Tablóide Digital’’ que pretende reunir, pasmem!, os 50 mil artigos escritos ao longo dos 35 anos de carreira de Aramis, para 19 diferentes publicações, num site da Internet - aliás, já ativo, com aproximadamente 4 mil textos e que pode ser acessado na seguinte direção eletrônica - http://www.millarch.org. Aliás, esta Folha2 deu ampla matéria sobre o assunto, no texto sempre impecável de Zeca Corrêa Leite.
Digite e reviaje,leitor, os mundos de Xaxufa.
Odiava, com todo ódio de que era capaz, o apelido infame, ganho não sei onde, e é de propósito que o coloco aqui, só para mexer com ele, no céu que lhe aconteceu, e de novo gozar-lhe a fúria, quase sempre meio inocente e meio ingênua, invariavelmente bufa, engraçadíssima. Aramis Millarch era um puro, para além dos (inúmeros) inimigos ou adversários, que deixou, ou enterrou solenemente, em vida, era um puro - desses que não se fazem mais.
Com ele convivi intimamente num trabalheiro que cobriu de textos para porno revistas consumidas por engraxates até sofisticadas matérias para revistas nacionais de informação. Difícil, complexo, e quase impossível aturá-lo, muitas vezes, mas eu me orgulho de pertencer ao mundo reduzido de pessoas que soube entender Millarch, ultrapassando o que nele constituía vício e temor, insegurança e pânico. Era um puro, repito, era um puro.
Quantas das noites cachorras de minha vida assustada eu mereci dele a solidariedade e o afeto, a compreensão e a ternura que sabia pôr - vencendo-se a si mesmo e à sua inextricável timidez - nas amizades que prezava? Fomos amigos em tudo ainda que em tudo fôssemos tão diversos!
Fico sabendo também que Aramis Millarch pode entrar para o Guiness, o livro dos recordes, pelos 50 mil artigos produzidos numa vida que não ultrapassou 49 anos. Ah, Xaxufa, o mistério de que tenhas morrido tão cedo, o quase insuportável mistério de tua vida breve...
As munhas & mumunhas dos gereciamentos oficiais da cultura continuam as mesmas pobres e esfarrapadas munhas & mumunhas contra as quais Aramis Millarch brigou, incansável, durante toda a vida, e daqui a cem anos, não duvidem, continuarão sendo as mesmas. Ele, coitado, pensava que podia com elas e que também pudesse lhes dar um jeito, quem sabe, um dia. Aí brigou em vão.
Mas quem não foi alvo dos seus venenos e não provou, deles, ao menos uma vez, o amargor, de Millarch não chegou a ser o que se possa chamar propriamente amigo. Cobrava - até publicamente - os que admirava, e tinha a capacidade terrível de ignorar, com enojado desprezo, os que não lhe iam aos cornos. E eram muitos - tantos os últimos quanto os primeiros. Em muita gente Aramis Millarch não deixou a menor saudade.
Eu, de meu lado, permita-me a confidência, fiel leitor que me acompanha as cronicações obsessivas, estou de novo com saudade de Aramis Millarch, que é uma saudade que eu tenho sempre. Lembro tanta coisa: o Karman Ghia branco, seu primeiro carro, lá atrás, em 1966, e a nossa adolescência assombrada; lembro um porre com Vinícius de Morais, no restaurante alemão, e que terminou com os três sentados à fímbria do meio-fio, num vômito angustiado e concomitante; lembro as tardes azuis de Curitiba em que íamos à distante Grafipar, andando a periferia da cidade, seus asfaltos e vias expressas, e tento esquecer, ainda que condenado a lembrar, o dia em que Aramis Millarch morreu e a sua morte exposta na capela da Reitoria.
E nunca mais a voz fanha, fina, e problematizada por uma disfasia, briguenta interpelou-me, pelo telefone, na madrugada: Wílxon, xabe o que voxê é? Voxê é um crápula!

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