Wilson Bueno
Encerram-se, nesta sexta-feira, 12, as inscrições ao Prêmio João Antônio do Concurso Nacional de Crônicas promovido pela Associação Bamerindus (041-233.5549), entidade que congrega - pasme, atento leitor! - perto de 25 mil associados. Nesta sua décima primeira edição, o concurso, graças à sensibilidade do poeta e jornalista Nilson Monteiro, à frente da assessoria de imprensa do grupo HSBC, homenageia uma das figuras seminais da literatura tupiniquim deste século, o muito nosso compadre e amigo João Antônio Ferreira Filho.
Os (poucos) que me sabem a vida andeja, devem ter tido notícia do que foram as duas décadas e meia da entranhada amizade, as que me uniram a João Antônio, este ser humano para quem a literatura não era só ofício e teimosia, mas impunha uma coragem maior e além - a de saber-se absolutamente entregue a ela como quem entrega a alma ao Diabo. Não vi, nem uma vez sequer, em todo este tempo, o meu amigo João Antônio pôr em dúvida o pacto ou a natureza dele - visceral como uma orquídea.
E aqui desvelo um segredo: João Antônio não dormia, quase não dormia mais, o nosso velho compadre, aceso na noite insana do (falso) mirante de Copacabana, que era como chamava a cobertura onde morou, por mais de 40 anos, na Praça Serzedelo Correia; e como não dormisse, lia, escrevia, anotava, ouvia, entrelia e entreouvia o silêncio das noites cachorras da cidade do Rio de Janeiro.
Nenhuma surpresa, sabê-lo em casa, ao alcance do telefone, às 3 ou às 8 horas da manhã de um mesmo dia, numa prova viva de que não dormia, não dormia mais o nosso compadre que soube administrar os veios e a voz da Língua com uma delícia invejável e uma competência de mestre cantor. Não foi escritor de abismos linguais feito Leminski ou Rosa; não, a sua desconstrução da linguagem era mais um recolher - e transformar, pela via de um talento desconcertante - a fala vagabunda das ruas, dos malandros, dos merdunchos, dos pingentes, dos jogados-fora, dos tortos e dos pedintes, dos amantes de viés, dos travestis, guardadores, pixotes, prostitutas, ratos-de-praia. Nisto elevou o idioma a alturas inomináveis.
Caminhando para um (saudável) delírio de linguagem nos últimos escritos, João Antônio morreu a sua morte horrível inventando o pintagol . Versos compulsivos, tomados de êxtase e de certa iniludível loucura que o faziam elevar a prosa à uma tão alta potência que já não era mais prosa a prosa toda que em poesia se derramava dos pintagóis do escritor João Antônio. Daniel, o único filho, matemático com graduação nos Estados Unidos, deve guardar estes originais como quem guarda um soneto de opala e nácar no fundo do bolso do sobretudo. Com o amor - alto e necessário - que é o amor a uma peça de literatura; ou a um teorema.
Curiosos estes pintagóis que, sabemos, designam o fruto do cruzamento de dois pássaros exatos - o pintassilgo (macho) e o canário-da-terra (fêmea). O canto do pintagol é de um chilreio que, não fosse a loucura da metáfora, eu o chamaria barroquizante, com um quê de anárquico e imprevisto empenho. João Antônio não deixou por menos: inventou os pintagóis, independências textuais para as quais ele mesmo criou um nome - autonomias. Contribuição à sempre impura crítica do Reino, sagrava-se um novo gênero para as letras daqui e dalém mar.
João Antônio foi um cara permanentemente fiel ao jogo in-sensato de escrever e se consumiu nesta febre de um modo voraz e suicida. Algumas vezes pirou.
Ah, a nossa amizade fraterníssima!
Ora nos vejo, bêbados de um tonel, subindo o morro de Chapéu Mangueira; ora nos vejo no trânsito aflito das três da tarde, no centro da cidade do Rio, descascando ananás; ora nos vejo, comovidos, nas rodas de chorões do Andaraí, bebendo cerveja e tocando cavaquinho.
Êta vida gaia, a vida, aquela, meu Deus!
No silêncio do arrabalde os cães entretrocam uivos e latidos e quem sabe costurem uma mensagem lupina: a de que o poeta João Antônio comunique insuspeitados pintagóis na pauta cifrada das madrugadas de agora. O mundo é tão grande e há as estrelas do céu, mas tem que da noite só recolho a noite mesma, não mais que isso, a conversa dos cães, e um quem sabe farfalhar soturno dos arvoredos.
De que água e vento o pacto do escritor João Antônio com o Demo?





