Machado de Assis em tela de Henrique BernardelliO velho Machado de Assis continua mais vivo do que nunca.
Passam os anos, passam as estações, até o século passa, só não passa a graça - umas vezes prosa; outras, pura poesia - deste mulato infernal do morro carioca do Livramento, nascido lá, em 1839. Nenhum escritor brasileiro, até hoje, ombreou-se a ele em gênio e engenho e isto, fino leitor, numa das boas literaturas do mundo, em que se constitui, sem favor ou ufanismo, a nossa. Não é pouca coisa.
Agora - inteligência à vista na tevê brasileira -, o canal a cabo GNT, anuncia para depois de amanhã, quarta-feira, a estréia de ‘‘O Rio de Machado de Assis’’, que prossegue na quinta e encerra na sexta, sempre às dez e meia da noite. Oportunidade de reviajar o mundo de Joaquim Maria Machado de Assis, o seu ‘‘olhar’’, antes de tudo um ‘‘olhar’’ vazado nas águas da melancolia mais do que nas do chiste e da galhofa, outros de seus atributos supremos.
Massacrado pelo (paupérrimo) ‘‘sistema’’ nacional de ensino, tanto o do oficialismo quanto o da iniciativa particular, Machado de Assis é o atrapalho no trabalho dos que precisam passar de ano ou de grau. Vai virando, com a frequência com que é exigido, em fonte de aflição e angústia de nossos estudantes e, por efeito, numa espécie obscura de monstro intragável, e velho.
Lamentável que isto ocorra com o maior dos escritores pátrios, um dos mais importantes da Língua e certamente entre os dez ou quinze que contam na história da literatura ocidental. Convertido em tarefa e castigo, o velho Machado pouco se dá com o açúcar de suas agulhas d’estilo, veras finuras, a prosa deliciosa que maneja os recursos do idioma com uma delicadeza diabólica e um pouco insana. Torçamos para que, no futuro, os jovens ora submetidos ao sacro horror machadiano, possam desvendar dele a magia.
Se isto acontecer, não será pouco o encanto e nem menor o fascínio, tenho certeza, dos leitores compulsórios de hoje, se convertidos à polifonia verbal deste escritor singularíssimo, nascido pobre e feio, mulato e filho de pintor de paredes com lavadeira; destes brasileiros com tudo para não dar certo no país inóspito e preconceituoso. Mas o autor de ‘‘Dom Casmurro’’, flor inexata, vingou, contra todas as expectativas, na atmosfera nem sempre acolhedora do patropi brutal, vingou, assim com uma persistência de raiz.
Desde que morreu, em 1908, cresce a cada dia - aqui e nos países exteriores - em reedições que se sucedem em muitas línguas, em exegeses que vão de um clube anônimo de leitores de Machado, nos arredores de Coimbra, Portugal, até um outro clube, este menos oculto e mais festejado, o dos resenhistas do ‘‘New York Times’’, Susan Sontag à frente, ainda que com interpretações discutíveis da ‘‘coisa’’ machadiana. Para o ‘‘negrinho’’, que teve o primeiro emprego, de aprendiz de tipógrafo, nas oficinas gráficas de Paula Brito, no Rio de Janeiro da segunda metade do século dezenove, isto é um assombro.
O programa da GNT, com produção executiva de Norma Bengell, e direção de Kika Lopes e Sonia Nercessian, pretende ‘‘traduzir’’ o olhar machadiano sobre a cidade do Rio para a tela da tevê. Tarefa complicada, esta, ainda que animada pelo sincero amor a este homem de letras capaz de penetrar o mistério de ruas e praças, estátuas e canteiros da geografia carioca, pisando, ladino, sobre folhas secas. Impercebido e impercebível, imagino Machado com sua capa de ilusionista, viajando a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, tocado pelo vento, e por tudo o que é a brisa dos amores ocultos tocado, os pés a um palmo do chão.
O documentário privilegia a ótica de três personagens - Capitu (Fernanda Torres), Brás Cubas ( Paulo José) e o Conselheiro Aires (Tonico Pereira) , num ‘‘tour’’ lítero-televisivo pelo Rio, alternado com o depoimento de cineastas, poetas, críticos e ensaístas. A idéia é ótima, resta ver se funciona.
Que não vos dará Machado de Assis inteiro, isto é o certo, porque o melhor Machado, obstinado leitor, é aquele, no mais quieto da noite, quando a sua prosa pode que despregue da página de um livro e coleante ande do livro ao travesseiro e dali ao tapete do quarto e não sendo possível atravessar a porta fechada, dançe, bailarina, um minueto, até que alcance passar pela fresta da fechadura e desta à sala, ao hall, ao elevador, à rua - aí onde, fugitiva e merencórea, célere há de montar ao primeiro tílburi da madrugada.
Machado de Assis é mais, bem mais que um escritor.

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