Wilson Bueno
Arquivo FolhaConheço uma jovem senhora que, ciosa do passado da família, considera como mais importante peça do que poderia se chamar a sua pinacoteca, pequena mas altamente expressiva, o velhíssimo daguerreótipo de um piquenique em que se reuniram seus ancestrais.
Não, nem um óleo de Visconti ou Andersen, nem o anjo de Djanira na moldura como se brincasse, e nem sequer o solene Emeric Marcier, reproduzindo-lhe em tamanho natural, o avô e seus bigodes, conseguem superar, para esta jovem senhora, o que diz e o que fala o retrato remoto - em soberba ampliação, como a um quadro impressionista, emoldurado na parede central da sala.
Não é de se desprezar tal desvelado apego: na velha fotografia, a tecnologia incipiente parece ter flagrado o instante fugaz e absoluto - do tempo como num vácuo. E ainda: a privilegiada harmonia do instante único em que sombrinhas, saias, cestos, senhoras, frutos, crianças afogadas em vestidos, guloseimas, senhores graves, árvores, riachos, pedras, barbas, cartolas e colarinhos, se compuseram para tecer o que, ao longe, nos sugere uma viva paisagem de Monet ou de Utrillo - em preto-e-branco.
São destes gastos cinzas e destes entresombras as ilusões. Como acreditar que todos aqueles, ali, numa festa de domingo antigo e sem data, imortais nas poses da miúda alegria, como acreditar que absolutamente todos, sem exceção, não passem hoje de figuras de papel, de figuras-de-retórica, inclusive as crianças? E que de morte longínqua aconteceram todos os desaparecimentos, um a um, cada qual à sua maneira e estilo!? Em contagem sempre regressiva, o que fizeram os relógios senão lhes roerem os olhos e o tempo dos olhos, as barbas, os caráteres e até a dignidade - cada qual a hora e vez? Porque assim é e assim sempre será.
Os retratos. Ah, também os retratos nos álbuns de família! Estes então, como num filme contínuo ainda que fragmentado, recompõem o que de melhor esconderam, inutilmente, na solenidade das fotografias, aqueles parentes carregados de enrustidos vícios e de cochichados defeitos, a quem, os de casa, não nomeiam - para que não se enlameie a memória do clã pobre, ainda que danadamente moralista. Talvez nem mais existam, ou tenham se mudado para muito ascos. Sobre estas fotos recai o silêncio constrangido de mãos que passam depressa a página. Com horror.
E ficamos a perguntar, em vão, o que fizeram de tão grave. Sozinho na contemplação, imagino o que não houve com aquele ali, um tio-bisavô antiquíssimo, quase sumido no amarelo ordinário da foto e que nos sorri um sorriso sacana desde mil novecentos de antigamente. Suponho-o, no exame solitário, capaz das mais intricadas negociatas, naquele interior mineiro de latifúndios e falcatruas; pontual também, quem sabe?, em derrubar negrinhas novas pelas estradas das Geraes.
Ah, o que dizem - não sei por que razão ao final de todo álbum - uns olhos frívolos, o lábio a meio sorriso, no cinismo que conferimos à expressão daquela parenta próxima, cheia de invejas e intrigas, e que nos passou pela infância como o símbolo da vida avara e da morte mesquinha! Fechada no corpete, o cabelo em coque, grisalho e asseado, o rosto é o de alguém que - de uma forma ou de outra - prossegue olhando.
A minha amiga fez de pequena parentália, um mais que perfeito quadro impressionista, para a melhor parede de sua sala, e ali o corte de um peito estufado ou as sombrinhas em flor das damas, compõem um cenário e uma paisagem - nos quais o humano é apenas figuração. E não há, portanto, como nos álbuns, esta vida em capítulos, em 3 por 4, 4 por 2, 12 por l0 - cada um com sua história - nem todas necessariamente dignas de saudade.
No tempo dos álbuns nem só a nostalgia canta. E se nos vemos, a nós próprios, pré-fixados nas cantoneiras de papel, prendendo-nos ao papelão vetusto, o que olhamos já é pura miragem, sonho exausto que presente algum ousará chamar realidade.





