IlustraçãoDas boas coisas da vida iniciar a semana consigo, gentil leitor, livre para considerar desde o vôo da mariposa noturna até a antiestória atrás de um texto sombrio de Kafka ou de Schopenhauer; dos dias tormentosos às tardes azuis de Curitiba. Não importa, estar ao vosso lado e contar convosco já é tanto e tudo e tão tamanho que nem sei.
Neste interlúdio amoroso, deixa, pois, que lembre, logo de cara, os crepúsculos, contados por Ernest Hemingway, do cais de Esmirna. Há um conto terrível e cheio de uivos com o vento chicoteando o cais de Esmirna, numa das (inúmeras) reuniões de short-stories deste escritor que de tão imperfeito e desigual acabou nos legando, por contraste, algumas obras-primas incontestes do jogo (in)sensato de escrever. Esmirna e seu cais são neste pequeno grande texto o momento culminante de um mestre. Brame e chora, geme e ri o cais de Esmirna.
E estava este vosso croniqueiro, alheio viajando Esmirna, quando lhe veio à lembrança um outro cais; à margem das águas barrentas de um rio, outro cais - caipira e naif, cais prosaico de cidade de interior, assim como um figurativo de Osvaldo Teixeira, cais de rio, lama e floresta. É que ali, um dia, revela a lenda, viveu um índio destemido e vigoroso chamado Akanié, e Akanié contou tantas estórias, imiscuiu-se em tanto segredo e tanta lenda, que Akanié ficou muito famoso, rio acima e rio abaixo, e vinham de tão longe ouvir-lhe as maravilhas, que um dia Akanié perdeu o juízo.
E então, começou a compor estórias desconexas, sem ponto e nem vírgula, e eram tão delirantes as inventações de Akanié, que os barcos todos que se aglomeravam, sobretudo aos sábados, no cais do velho rio, começaram a rarear, dia após dia, até que passadas mais de duas semanas, ali só restou uma canoa e dentro dela um canoeiro atento que não despregava os olhos de Akanié e de sua recitação delirante.
Sabem quem o solitário ouvinte? Era o próprio Akanié cuja sombra desenhava-se nítida contra uma canoa vazia.
Esta lenda, fronteira do melhor koan búdico, e releitura arquetípica do mito de Narciso, contou-me um antropólogo moço e dado a aventuras no Baixo-Amazonas e que vem recolhendo causos e mitos de nossos índios, num trabalho que só a sua juventude será capaz de levar avante - o mapeamento da rica tradição oral daqueles ermos engolidos pelo próprio exílio. Não queira saber, fino leitor, o que seja a aventura sertanista e desbravadora - há de exigir sempre - atributos raros - heroísmo e coragem não pequenos de seus protagonistas.
Outro não é o caso do indianista e etnólogo paranaense Gioli Serveira, há mais de um ano enfurnado na floresta, e que a intervalos de meses, dá notícias, pelos aviões do garimpo ou pelo rádio.
Ficamos sabendo, por exemplo, há alguns dias, a sua exata localização, colhida no radioamador, ainda que sob a linguagem quase indecifrável de latitudes, graus e longitudes, que nos obriga aos bons préstimos de outro sertanista, desta vez necessariamente geógrafo, para que nos descodifique a ‘‘mensagem’’: Gioli Serveira está no interior peruano, próximo a uma cidade chamada Paquerras, a mil e quinhentos quilômetros de Manaus, se não me falha o exato grau de longitude. E se não erra o bom Cacao, marumbinista famoso e geógrafo de plantão, que nos converteu as distâncias para o português claro.
À fímbria do terceiro milênio tecnológico e exato, Gioli Serveira escolhe o risco e a errância, a coragem no lugar do chip e o vagar em vez da pressa supersônica. Escolhe mais o Gioli Serveira, moço bonito e amante da poesia de Manoel de Barros, escolhe, munido de um gravador e ao abrigo de sua tenda, o fino ofício de fazer da vida um empreendimento encantado.
Sem os juros de mercado, a cotação da bolsa ou as taxas de agosto do condomínio.

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