ilustração Douglas MayerDorival Caymmi continua cada vez melhor, na casa de areia dos oitent’anos e no exercício pleno, mais que absoluto, do seu direito ao silêncio. Confundido por uns com baianice, por outros com preguiça e, por outros, ainda, com as duas coisas juntas, os silêncios de Caymmi são em verdade silêncios gestados no gosto feliz da vida.
Por isso, os silêncios de Caymmi não desprezam necessariamente o convívio e a fala mais inquieta, embora ele avise, desde sempre, que será no silêncio aonde haveremos de encontrar a doçura perdida. Comove-nos a lição do mestre, octogenário, búdico e insistente trangressor da norma na merencórea fazenda seresteira que é, sabemos, o país.
Não foi diferente agora, no belo texto que assina na última revista da Net, texto de amor e solidariedade ao escritor Jorge Amado que, a partir da próxima sexta-feira, será o enfocado da tele-série ‘‘Grandes Nomes’’, que prossegue na segunda, 11 (12 e 18 horas) e encerra terça, 12 (12 e 05:00) no GNT, sob a direção de João Moreira Salles. Ao ser solicitado pela editoria da revista para escrever o testemunho dos 58 anos da amizade que o liga a Amado, os silêncios de Dorival se inquietaram. E ele compôs um texto em que senhor de sofisticadíssima simpleza relata em português breve a graça e a delícia do ofício de viver.
Destoa, Dorival Caymmi quase sempre destoa: de um lado há o país arrastando os chifres no chão, de preferência ao embalo de um tango corneador e, de outro, há o prosaico afiadamente sublime de um octogenário e sapientíssimo mulato tupiniquim, frágil o bastante para perceber que sem a ciência da vida não há a vida e nem este gosto de sol que é, dele, a lição mais clara; e constante.
Que imprevista entidade africana mora nele e brinca de monge cantor? É capaz, Dorival, aos oitenta e três anos, no país dos enfarados e enfatiotados, de se proclamar, no artigo em homenagem a Amado, com todas as sílabas e a poesia que mora aí, brasileira, um ‘‘soteropolitano do cu riscado’’, para dizer de sua alma profunda, confundida à da cidade de São Salvador.
É o poeta do imprevisto mais orgânico e da espontaneidade mais cativa, uma que espécie assim de negro gato zen a fazer-nos corar a velhice muitas vezes prematura.
Não compõe mais, e nem precisa; raramente atende a pedidos de entrevista e ainda mais bissextamente realiza shows, preferindo o retiro de Rio das Ostras onde o mundo pode se resumir, por exemplo, leitor amigo, na eficiência gozosa de um simples ventilador. Esta história, uma das muitas que andam por aí a denunciar a intimidade de Dorival Caymmi é quase um koan búdico, não fosse tão essencialmente tropical e, mais que isso, baiana.
Perguntado, num talk show, qual as duas melhores coisas da vida, não hesitou, de modo singelo: as melhores coisas da vida são o amanhecer e o anoitecer, explicando, a seguir, com minúcia, as razões e o luxo de um e outro.
E tem que Dorival Caymmi sabe ser Dorival Caymmi até mesmo nas canções aparentemente mais ‘‘dramáticas’’, digamos assim, de seu repertório. Observe, atento leitor, faça o obséquio de observar - mesmo as noites mais cachorras cantadas nos versos do mestre, não são de dissolução ou bruma, antes ensinam o quanto o amor frustro ainda é exercício do radical convívio e, dele, o seu amplo abraço.
No texto para a revista da Net, Caymmi consola Jorge, entre muitíssimas outras, com estas: ‘‘Ô Jorge. Deixa isso pra lá. Todo mundo vai ficando velho, vai ficando cego. A gente vai perdendo o olfato, a audição, a visão. Mas, no final, a gente pode gozar de uma coisa maravilhosa que se deve cultivar: o silêncio. Para analisar, refletir, sintetizar.’’
Caymmi não tem mesmo parte com o Demo; até na sombra, Caymmi assovia.

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