Wilson Bueno
Nada melhor para começar a semana do que uma reflexão sobre Deus que, para Jung, era o Arquétipo Central da Ordem e, para os sumérios, só um trovão engastado na pedra - a crer no poeta antigo capaz de falar pelos sumérios, mesmo que no grego mais castiço. O poeta Lisímaco, rei da Trácia, foi também, sabemos, um perfeito guerreiro, e considerava, sabe-se lá porque razão obscura, os sumérios, os verdadeiros inventores de Deus. Quem já folheou os compêndios helênicos sabe o destino de Lisímaco nas mãos de Seleuco. Mas esta já é outra história e uma história completamente sem Deus.
Certo, Deus, naquele tempo, não se chamasse propriamente Deus, mas todas as téo-variantes do Olimpo, com destaque para a figura dominante e dominadora de Zeus - permita-nos o jogo de palavra, um quase-Deus... A verdade é que não passava disso mesmo. Ainda que deidade suprema, havia em torno tamanha concorrência, que Zeus muita vez teve de se conformar a papéis nem um pouco dignos de Deus.
E tudo isso me vem a propósito da leitura recente de Ascese (Os Salvadores de Deus), de outro grego, desta vez de Creta, Nikos Kazantzákis, ver o presente do meu amigo Fernando Paixão, o festejado big boss da Ática e, mais que isso, poeta sensível, autor de pelo menos um livro antológico - 25 Azulejos, publicado pela Iluminuras. Pois Fernando é dado a estes mimos imprevistos: foi assim, uma tarde, com A Dignidade da Poesia, de Lezama, chegando pelo Correio com um sol dentro do envelope; foi assim com as lições paulistanas de Ungaretti, o inscritor do imenso.
Agora, sem que esperasse jamais, desembarca cá no tugúrio o envelope elegante e dentro dele um livro que, mais que livro, é toda uma concepção de objeto para ser lido. A capa cinza claro, formato 18 x 12, em alto relevo descobrirás, mínimo, sobre ela, o brilho prata do desenho de um pequeno homem como um borrão metálico e que, embora miúdo, sem rosto e de costas mira o nada, este permanente susto frente à nossa precariedade. Assina o design de Ascese, a Homem de Melo, enquanto nos transmuta do grego ao português mais brasileiro, o incansável José Paulo Paes.
Se falávamos de sumérios e de Zeus mais ou menos corrompidos, aqui teremos, ao referir o livro de Kazantzákis, de aceitar que humanos, frágeis em nossa impensável grandeza, do pó ao pó tornaremos, não sem antes fazer avançar, cá neste vale de lágrimas, a utopia de um Deus convertido não mais que no melhor desafio para a nossa coragem. Dúbia flor, o homem com medo.
É atravessando Deus, sujos de nossa humanidade mais humana, que daremos sentido e fúria à aventura que cá na Terra nos aconteceu por brusco acaso. Kazantzákis tem o tormento como alvo e o satori como um espinhoso andaime. Ascese, encharcado de Nietzsche, torna-se um texto que grita no deserto porque se impõe a tarefa insuportável de salvar Deus de Si mesmo. O livro, veja bem, devoto leitor, tem como subtítulo Os Salvadores de Deus e ninguém há de considerar pouco coisa este exercício.
Dividindo a obra em cinco partes bem delimitadas (A Preparação, A Marcha, A Visão, A Prática, O Silêncio ) Kazantzákis faz de Ascese assim como um livro de orações, não as do piedoso crente, comerciando virtude em troca de paraísos sempiternos, mas as do ser que pasmo de um misticismo selvagem, capaz caia de boca no chão. E nem é este ser o que o grego conclama a que lhe siga o rastro guerreiro - quer é o homem de pé, ainda que olhe terrível e mortificado contra o céu, como o profeta Amós, no adro da igreja de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, a cabeça erguida, olha terrível e mortificado contra o céu.
Fosse Deus uma invenção fácil, babuínos e carrapatos também O teriam, mais não seja para os momentos de pânico, mas como constitua caminho complexíssimo este que jamais nos levará a Deus, ainda que Nele tenhamos imergido a nossa existência fatigada, aí é que vige a angústia que O autentica - a mesma e velha angústia que movimentava na pequenina Königsberg as noites insones de Immanuel Kant.
Nikos Kazantzákis é autor, entre outros livros, de Zorba, que deu em filme bastante popular, com Anthony Quinn no papel-título, um hit do final dos sessentas, e O Pobre de Deus, uma biografia desusada de Francisco de Assis, muito lida, mas é neste Ascese que está a suma e o sumo.Ideário e cosmogonia. A febre exata da filosofia.
Ter a empáfia de encarar a existência e o seu percurso como espaço do Absoluto é ofício árduo e o mais das vezes condenado ao fracasso, mas em Nikos Kazantzákis, viajante, estudante, andarilho, com uma fome de Deus legitimada pela agrura, toda esta arrogância de ser, e este uivo por Deus no escuro, como que encontra o seu ômega o mais humilde.
O meu amigo Fernando Paixão é fino poeta e se esmera, driblando o turbilhão de cada dia, em garimpar no depósito da editora, um livro assim raro e único e que, mais que livro, acaba no gozoso ofício de uma garrafa ao mar ou de um pombo correio. No cartãozinho em que me introduz a Ascese põe, de novo, vezo seu, uma dúvida fraternamente amorosa.
E me flagro, paciente leitor, ainda uma vez, montado em Deus para não cair de Suas crinas.





