WILSON BUENO
Cientistas americanos acabam de comunicar aos terráqueos nova e soberba notícia um potente modelo de telescópio, destinado a rastrear sinais de vida extraterrestre está sendo aperfeiçoado nos laboratórios do Instituto Seti, no Texas. Aliás, nunca a curiosidade humana a respeito da vida fora da Terra esteve tão aguçada quanto neste final de milênio em que se multiplicam as evidências de não estarmos sozinhos sem que até agora ao menos oficialmente, nada tenha sido provado nesse sentido.
Pululam as hipóteses, há sempre um vizinho, um amigo ou um primo distante que afirmam peremptoriamente haver travado contato, em graus diversos, com ETs desta ou daquela galáxia, enquanto baixo a inenarrável solidão das estrelas, para lembrar o poeta grego de tocante epifania, continuamos buscando, com insidiosa curiosidade, um sinal que seja destes seres por enquanto só de imaginação e de sonho.
Às voltas com verdadeiro empreendimento leitor, abismo-me na prosa minuciosa do Thomas Mann de José e Seus Irmãos, que a editora Nova Fronteira deve relançar até o final do mês no Brasil, na competente tradução de Agenor Soares de Moura. E, dias desses, numa das quatro ou cinco horas diárias devotadas ao livro, surpreendo-me mergulhado em três páginas seguidas, sem parágrafo e em corpo 8, na qual, vera cosmogonia, Mann nos dá, do Gênesis, a paisagem do céu.
Que céu aquele, senhores, o céu primevo, pontuado de constelações e presságios? Ditando astrologicamente a vida dos humanos, era o céu do homem de Ur, alucinado por Deus, que nem Deus se chamava no princípio, senão Eloim, o Vidente, o El, o Amum-Está Satisfeito dos hebreus, esse povo filho do tormento e da dúvida e que, por acercar-se demasiado do Altíssimo pagou o preço exorbitante do infortúnio mais escabroso.
Que de ovnis vagando na noite primeira, na noite ancestral de Nínive, se nem a noite era ainda esta que hoje concebemos como tal, e o tempo, sendo outro, outras eram as distâncias entre o homem e céu?
Isto nos perguntamos desde a acanhada superfície do chão, posto que, nos laboratórios americanos, informam os releases, o telescópio que vasculhará o Cosmos atrás de inteligência extraterrestre, utiliza sete discos de satélites. Como se trata de um protótipo, isto significa, trocando em miúdos, que, no futuro, este tipo de telescópio poderá contar com centenas ou até milhares de discos que, interligados por sofisticado sistema eletrônico, permitirá ampliar consideravelmente a caça aos ETs pelo vertiginoso céu deste ou de outros milênios...
Da Ursa Maior tremeluzente no firmamento às instâncias de brilho e raro fulgor de Câncer e Cão, Sagitário e Pisces, o jovem José vislumbra, no romance de Mann, bíblico e aterrado vislumbra, ainda uma vez, as notícias de Deus em cada estrela. Outro, claro, era o céu, como outro era o céu de Vieira (1608-1697), naquele xadrez de estrelas, à vista do qual o jesuíta luso-brasileiro perguntava ao século XVII o que da alma frente à imensidão do universo.
Detalha o divulgador científico que o telescópio americano destinado a buscar ETs, estrelas e astros afora, terá sua versão final pronta apenas em 2005 se convertendo então no mais potente instrumento da história da busca humana por sinais extraterrestres.
Em seu projetado início de operações, o telescópio investigará somente sinais das mil estrelas mais próximas do Sol. Em médio futuro, pasme, leitor, até 1 milhão de estrelas poderão ser rastreadas. E a longo prazo, pasme ainda mais, trilhões de estrelas serão visitadas pelo olho eletrônico de nossos bisbilhoteiros laboratórios.
Olhando o seu pedaço de céu, safira e luz, cá deste sobrado à Rua Edmundo Alberto Mercer, em Curitiba, este vosso croniqueiro, e astrônomo amador, se pergunta de novo e desde já sabe que ficaram velhas todas as respostas onde e em que fímbra do azul mais ancho outros olhos, que não os de Deus, nos espreitam e à nossa insaciável curiosidade?
Os ETs devem nos considerar mesmo atrevidos e possivelmente ousados demais desde a sua ótica de seres inauditos...





