O poeta Friedrich Höolderlin insistia em que os humanos devíamos habitar poeticamente este mundo. Desses enunciados que dizem muito mais do que a própria frase comunica, para o poeta alemão, além que um ato de fé, viver constituía um ‘‘ato poético’’ de afirmação contínua e infatigável. Ao final da vida, à beira da loucura, Höolderlin dizia que se salvava da insanidade (o que é paradoxalmente indesmentível vocação para a saúde mental...) apenas por sua disposição de fazer da aventura humana a pura poesia de cada dia.
É bem rica a tradição dos terráqueos nesse sentido – do alvorecer da humanidade, entre os caldeus, às últimas conquistas da tecnologia de ponta do império norte-americano, por via direta ou indireta, o que há é uma (saudável) persistência em tornar este mundo o gozoso cenário de uma ‘‘bio-poética’’ humana. Apesar dos entraves e da guerra, dos recuos e da ‘‘esquizofrenia na História’’ como tão lucidamente denunciou Arnold Toynbee, somos forçados a reconhecer que a pulsão vital tem prevalecido sobre nossa fanática aspiração à Morte e ao Nada. Não fosse issso, onde então estaríamos?
Mas ninguém como os orientais para fazer do enunciado de Höolderlin uma práxis contínua – do feng shui ao haicai, da ikebana à cerimônia do chá, como que pautam a vida por tudo o que nela traduz a secreta aspiração à leveza e à graça infinita do que Cecília Meireles chamava, por exemplo, de ‘‘os dias lindos’’. Não há como o élan vital para conferir encanto ao minuto e à hora.
Os guerrilheiros de Sierra Maestra, ao tempo em que a revolução cubana era só o espaço de uma doce e inesgotável utopia, tinham uma sentença para expressar, de modo convincente, essa ‘‘vontade de Beleza’’ – ‘‘Se amanece, nos vamos’’. Prova exemplar destinada a convencer, de vez, os que confundem leveza com ‘‘fragilidade’’ ou poesia com ‘‘ausência de vigor’’, o que é um cabeludo preconceito, se não uma ignorância, de fracos... Não importando os possíveis perigos da jornada, se amanecia, se iam, barbudos e enlameados, cantando a Internacional, por montanhas e charcos, rios e agruras, seguramente os mais audaciosos sonhadores deste nosso século em que o sonho foi – nem sempre, mas muitas vezes – só uma ausência...
Dia desses, o filho de uma amiga psicanalista, das mais conceituadas, deu-se ao trabalho de ligar para este vosso escriba, com uma pergunta, segundo ele, atravessada na garganta – como é que eu explicava o fato por exemplo de Helena Kolody com quase 90 anos continuar se interessando por poesia. Respondi a ele à maneira dos quase sempre sacanas monges zen – ‘‘Ora, meu filho, porque ela é uma poeta...’’ Andrew, este o nome dele, não se deu por respondido... Com menos de 20 anos e já, meu Deus!, senhor de inomeável perplexidade, deixou clara sua impaciência – ‘‘Sim, eu também sou um kartista mas com menos de cinco anos de kart, estou achando guiar um saco... Estudar então, eu que sou estudante desde os 3 anos, não aguento mais...’’
Também a impaciência, quando vezo da mocidade, põe açúcar mesmo nas coisas mais impuras e talvez ela, a impaciência, seja de Andrew, neste momento, a maior poesia. Disse isto a ele, com outras palavras e novos modos, no entre-pensar que pode fazer o imaginário alargar-se em imponderáveis reticiências... E só então pude vencer dele o natural ceticismo da idade e fazê-lo talvez interessado pelo que aqui tratamos desde a primeira linha – a poesia que nos faz a vida menos pressurosa e mais concentrada.
Desses milagres da coincidência (sincronicidades, leitor...) o telefone toca a seguir e desde a Rua Voluntários da Pátria, no centro desta nossa já aflita metrópole, me vem a voz de Helena Kolody, para dizer, do azul do findante outono, o que os seus olhos vêem. E eu lhe digo, poesia canhestra mas ainda assim poesia, que os olhos dela são o azul curitibano. E nem me dou ao esforço de lembrar que a frase é do Leminski (lembra, Helena, lembra?) e o outono, ah, este ainda é nosso...

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