As noites de janeiro eram bem quentes na Pirinópolis daquele tempo, na casa avarandada do poeta Francisco Coli, à beira do rumoroso Ijuí-Mimoso, naquele Goiás onde nove entre dez perseguidos pela ditadura Garrastazu Médici se escondiam da sanha policialesca dos patéticos militares. Queimando no fogão da cozinha a erva seca da peroba-do-mato para espantar o chuvaréu de mosquitos, à roda do chimarrão goiano, Coli, para minimizar a saudade e a agrura, narrava as suas estórias encantadas.
Como esquecer, entre tantas, aquela que relatava o amor de um índio pela Virgem Maria no mais espesso sertão do Mato Grosso? E tudo era o Araguaia, segundo o saudoso Coli, sorvendo com gosto a erva que no verão apazigua o calor e nos duros invernos aquece-nos as entranhas.
O índio se chamava Inieu, da nação carajá, e ainda que índio chucro, na embriaguês do cauim topara, tarde da noite, com um minúsculo povoado de garimpeiros próximo à aldeia onde vivia. Curioso e buscador, a maior descoberta de Inieu esta noite foi a capelinha dedicada a Nossa Senhora de Lourdes, cavada na boa pedra das margens do Araguaia. Neste ponto, o nunca esquecido Coli pontuava a narrativa, primeiro com um suspiro e a seguir com um comentário de ordinário bem ferino contra os milicos que nos atordoavam a vida - ‘‘Até debaixo do barro dos rios os nefandos estão procurando guerrilheiro...’’
Novo suspiro, e retomava a estória. Como a noite, de lua cheia, fosse mais clara que o dia, a imagem de Nossa Senhora, furta-cor cintilava no altarzinho improvisado pelos mateiros. E Inieu não acreditou no que via - os olhinhos de intenso azul da santa causaram-lhe primeiro desconfiança, a seguir espanto e por fim o mais deslavado enamoramento.
Várias vezes seguidas o índio carajá voltou, no silêncio da noite sem testemunhas, para rever a imagem, até o dia em que, outra vez bêbado de cauim, dormiu ao pé dela e quando acordou, sol alto, os garimpeiros já o rodeavam, armados até os dentes e sumamamente apavorados com a sua presença. Feito um bicho do mato, - e não era a rigor mais que isso - , Inieu bateu a poeira do corpo, limpou com os dedos a remela dos olhos e já ia desguiando para a floresta, quando foi impedido pelos homens brancos.
Falando atropelado na engrolada língua carajá, Inieu várias vezes apontava a imagem, com gestos ríspidos, o que os garimpeiros entenderam como uma ofensa à venerada Senhora de Lourdes que era, deles, guia e padroeira, milagrosa santinha de olhos azuis luminescentes. Sem que ninguém esperasse, Inieu, num salto, lançou-se à imagem e agarrando-a com as duas mãos, apertava-a contra o peito - alucinadamente apaixonado.
Mas, de novo, o obtuso entendimento dos garimpeiros decifrou ali o desejo sacrílego em todos os sentidos de roubar a imagem da santa. Recuperá-la das mãos do índio foi mais que uma epopéia - isto o compadre Coli explicava, realimentando com a erva seca da peroba-do-mato as brasas do fogão pois, mesmo com ela, os mosquitos não davam trégua.
Batendo-se contra cinco ou seis homens, Inieu, a quem Tupã dera o vigor físico de imbatível guerreiro, conseguiu escapar de seus contendores e sumiu na espessa mata agarrado à imagem feita ela fosse a sua namorada.
Não precisa dizer que muitas foram as expedições floresta adentro ao encalço de Inieu, e até hoje ninguém sabe, ninguém viu, mesmo entre os carajás, em que mato se meteu o apaixonado guerreiro índio.
Vez por outra, garantem, sobretudo os curumins, que sonham muito e pouco sofrem, que, nas cerimônias de bebeção do caium, Inieu reaparece, só para as crianças, um boneco furta-cor nas mãos que, dizem, é a Nossa Senhora dos brancos, de inacreditáveis olhos azuis. E ciumento não permite que toquem dela, em nenhum ponto, a sua dura carne de barro cozido...
Tanto tempo depois, que outras estórias anda a espalhar o verbo enfeitiçado do poeta e mateiro Francisco Coli, no céu que lhe aconteceu?

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