WILSON BUENO
Koans, já disse aqui e, pela enésima vez, faço questão de repetir, são minieventos do cotidiano transformados pela graça e a mágica da parábola, da anedota ou do chiste na súbita iluminação interior que, segundo a tradição, pode vos tornar um Buda. Utilizados pelos mestres andarilhos do Tibet para transmitir os ensinamentos zen-budistas, estas pequenas histórias imantadas de eterno acabaram se transformando quase que num gênero literário, haicontos de extensiva doçura capazes de mexer dentro, impetuosa, vossa força interior. Assim como a luz da tarde põe cor e açúcar na tardia romã que, desta janela, ora nos olha e nos vê...
- - O sentido da chuva
O jovem monge ouve falar que o mestre Kazue alcançara tamanha santidade que poderia fazer chover a hora que bem entendesse e, em razão disso, decide procurá-lo no mosteiro sequioso de que retornem as chuvas às plantações de arroz de sua aldeia. Sabendo da visita do jovem monge, Kazue, que era um monge muito brincalhão, e também muito cético, se esconde dentro da arca, único objeto na cela vazia.
Entre, meu filho, entre...
Mestre Kazue, não entendo... Por que não sai daí para me receber?
Nem precisa, já sei porque você veio... Fazer chover, não é?...
É, é sim, mestre. Mas não entendo por que o senhor está aí dentro, aí dentro da arca...
Quieto, meu filho, muito quieto... Xiiiiiiiiiiii.... Está escutando? Xiiiiiiiii...
Estou.
Está mesmo? Xiiiiiiiiiiiiiiiiii...
Estou.
Então? Estou fazendo chover na sua plantação de arroz...
Ah.
- - A lua amarela
Na sétima noite de rigoroso jejum, não aplacando a fome sequer os tijolos aquecidos colocados contra o ventre, o monge cambaleante chega até o mestre que, no pátio do mosteiro, acompanhado de vários discípulos, olha ao Norte gigantesca lua cheia. A voz vem fraca, quase arfante:
Mestre, preciso atingir os 13 dias de jejum, mas já fraquejo, a fome me rói as vísceras...
É que você não está conseguindo a abstinência que toda quieta renúncia ensina. Você está fazendo penitência, meu jovem, só isto penitência.
Como assim?
Sente-se ao nosso lado. Você é o convidado desta noite para saborear conosco um pedaço desta lua amarela.
Mas isto não me saciará a fome torturante, mestre.
Não até que você experimente, daqui a duas horas de completo silêncio, um naco que seja dessa lua amarela.
Mas então o mestre e os demais monges estão também em jejum? Há quantos dias?
Há quinze, meu filho; há quinze dias temos nos alimentado, e muito bem, dessa lua amarela.
E de dia, mestre? De dia, quando a lua vai embora?
Aí dormimos profundamente e, às vezes, sonhamos que estamos conversando com um jovem monge que não consegue chegar ao seu décimo terceiro dia enquanto todos nós nos saciamos dessa lua amarela. E, às vezes, isso, no sonho, nos dá muita fome, o que, claro, aproveitamos de forma inteligente, alimentando-nos fartamente porque, sabemos, acordados, só temos a lua amarela...
- - - Leveza do ser
Mestre, o que deve um monge devotado ao zen fazer quando lhe pesar no coração a angústia?
Deve o monge devotado ao zen escutar como é que a angústia palpita no coração. -
Mas isto não é tudo, mestre. Por mais que ouça a angústia que lhe pesa no coração, um monge devotado ao zen estará em estado de angústia.
Quero saber a senda para a libertação, a senda para a leveza...
Ah, isto é absolutamente impossível a um monge devotado ao zen.
Mas não é, mestre, a leveza o fim último do zen?
Assim como a dura pedra foi toda esta brisa que, veja, se choca agora contra a montanha.





