Wilson Bueno
De novo, o velho e o novo
Arquivo FolhaNão imaginava, leitor amigo, o estrondo assustou-se o escriba, acreditem, com a sucessão de e-mails, telefonemas e até recados (os mais imprevistos...) a respeito da cronicação do último domingo ao pé desta página. Referia então lá, como aqui mais uma vez, o novo novo e o velho velho, num texto ao fim vazado por severa melancolia vezo de solitários e de quem tem a infância em Curitiba tragada já pela noite dos tempos.
Além da comunicação de conhecidos, aqui e ali, uma vez ou outra contatados, chamou-me a atenção o telefonema de uma misteriosa senhora M. que, não desejando se identificar, dizia apenas ter nascido no interior de São Paulo, casada e comprometida (o que me pareceu redundância...) e esta, sobretudo, a razão do anonimato... Não sei por que um pequeno pintor das tardes melancólicas da Floresta, feito este locutor que vos fala, pudesse ameaçar-lhe o sólido casamento o adjetivo é também dela, leitor, enfático e definitivo.
Bem, a senhora M. me tinha na conta de velho velhíssimo pois, segundo ela, já passada dos cinquenta, nunca ouvira os bordões das carrocinhas dos polacos que vindas do Bigorrilho enchiam de música as manhãs da minha infância em Curitiba. Só se muito remota semelhante infância pois morara dos 7 aos 14 anos no mesmo bairro e nunca vira uma carroça que fosse destas que, nascidas da nostalgia, povoaram a crônica da semana passada arguia a elegante senhora, sempre em bom tom, claro, que não se esperam grosserias de uma cinquentona, ainda mais casada e comprometida.
Dei a ela a resposta mais à mão o relato não foi sonho de menino pobre em Curitiba e ainda tenho bem vivos os meus pais, os dois, felizmente, para confirmar que descendo a Augusto Stellfeld, vindo o tropel dos cavalinhos pela Princesa Isabel, as carrocinhas polacas, abarrotadas de legumes e verduras, ficaram assim nem que um sol na lembrança das cousas idas e vividas... Coisas velhas velhas? Ou novas novas em folha a renovarem na imaginação o passado perdido?
Em que ano isso se deu? Quis saber a anônima senhora, ainda que em tom sereno, determinada, incisiva. Disse-lhe que não precisava bem o ano mas era aí entre 1955 e 1960, os anos JK, a voz de Agostinho dos Santos, puro veludo nos programas matinais da Rádio Clube Paranaense, cantando o então quase desconhecido Antônio Carlos Jobim. Estrada do Sol, A Felicidade, ouviu, Wilmar Klein, nosso quase sempre precioso cultor de coisas novas novas, ainda que estas estejam bem velhas nos catálogos das gravadoras... Ou até fora de catálogo... Ou, pior, fora de moda.
Outro leitor sensibilizado pela crônica do último domingo foi, pasmem, um leitor adolescente, aliás, não é a primeira vez que entra em contato com este vosso por vezes rabugento escriba e mora em Ivaiporã, e se chama Marcelo Ferreira da Cruz, 16 anos. Isto sim é o que podemos considerar como alguém devotado às coisas novas da vida além da pouca idade, dedica-se ao kart, à informática, e ainda tem tempo (ou vitalidade) para prestar atenção aos caprichos, velhos ou novos, com que uma imaginação baldia anda este rodapé de domingo. Para ele, um pouco novo é o Rubinho Barrichello mesmo que velhas e vãs tenham sido todas as suas tentativas, até aqui, para mostrar a que veio. Mas esta já é outra história a pôr o novo em xeque...
Ao fecho aqui destas linhas, só sou feliz, leitor amigo, se torno à misteriosa senhora M. e ao seu não menos misterioso contato, para acrescentar que, ao final da elegante peroração telefônica, sem perder a finura e o tom, foi capaz de desdizer-me a existência O senhor inventa tanto nas suas crônicas que eu acho que o senhor não existe.
Será?





