Wilson Bueno
UMA FÁBULA
BetoBetoEu sou a coruja Coruja e moro dentro da noite feito ela fosse um casulo. Leitora de Herculano e Camilo, contra a lua cheia desenha-se o meu perfil de decepado pescoço. O mais do tempo alterno o gosto de escrever com o de filosofar sobre o que na vida são os humores da Floresta.
O Macaco, por exemplo há macacos e macacos, convenhamos; o meu é Crispim, o magro e negro símio a quem ensinei as primeiras letras, plurais e verbos, regência e concordância. Ah, ia esquecendo dizer sou formada em Letras com especialização em língua portuguesa. Ao Macaco fiz saber, com raro êxito, até a conjugação, em todos os tempos e modos, do verbo arguir. Eu arguo, tu arguís, ele argúi... Aprendeu rápido o símio, dono de viva inteligência e pronta vigilância.
Difícil era manter o moreno (moreno?) Crispim acordado entre um cochilo e outro, nem vos conto, a vermelha linguinha de lado, não sei como não caía da árvore, ainda que a cauda (rabo é palavra que risquei de meu dicionário...) desse três voltas no galho, mais por garantia do que por qualquer desconfiança, de resto sempre tola, de que pudesse, logo ele, Crispim, perder o equilíbrio e ir ao solo. Mais fácil eu, coruja Coruja, não enxergar no escuro, do que Crispim estrebuchar ao chão a sua seca nádega.
Pois foi numa dessas aulas memoráveis, acordando e reacordando o macaco, no oco do velho jequitibá-rosa que vem me servindo de ninho e abrigo, a mim e às frutuosas horas em que me avenho com o símio, que nos surgiu aqui, humilde e churda, uma urubu fêmea, garota ainda mas já exalando a mais triste fetidez. E ainda dizem que nós, as corujas, dado o regime carnívoro, é que somos um pouquinho mau cheirosas. Intriga da oposição, óbvio.
Fedidinha fedidinha, manca de uma perna, a urubu espantou-se que àquela hora da madrugada estivéssemos às voltas com o verbo vigir (eu vijo, tu viges, ele vige, que eu vigesse...), coisa difícil de enfiar na cabeça de Crispim que, ao conjugar o complexo verbo, enrolava ainda mais a rubra linguinha, a mesma que caía de lado a cada inexorável cochilo. Ao ver a urubu, ou ainda antes de vê-la, apesar do sono e do cansaço, da noite alta e da extenuante azáfama do dia, macaco não pára , Crispim antes de premir (eu premo, tu premes, ele preme...), com dois dedos, o nasinho moreno (moreno?), foi enfático Dona Coruja Professora, que mal pergunte o cardápio seu hoje foi cobra?
A urubuzinha manquitola, e quanto mais perto mais fedidinha, abriu um sorriso humilde Não, seu Macaco, não é da Dona Professora... Deve ser eu (eu ou mim, professora?) que não sei o que é um banho há três meses, eu que me lavo inteira uma vez ao mês, sem falhar nunca... Crispim, pelos olhos, parece enxergou-a nua; nua e cheia de craca. E sem deixar de premer o nariz, respirando só pela boca, falou fanho, quase incompreensível E orquê não se lava a orquinha? Só or causa da erninha?
Surda, certamente pelo excesso de cera no ouvido, dançada de todo lado por uma chusma de mosca, a jovem urubu riu de novo, agora um risinho encabulado São seus olhos, seu... Macaco... Ao que Crispim respondeu ríspido, ainda tapando o nariz Eus rólhos, não; meu ofato, sua ooorquiiinha... E ainda mais confrangeu-se a nossa pútrida visitante, pensando, claro, que meu discípulo a cortejasse fooofiiiinha, foofiiiinnha... Não tenho dúvidas, xingava a urubu, claro, de porquinha... Ah, Crispim e seus chistes, suas burlescas pilhérias.
Mas como até com a fedentina rápido nos acostumamos, logo no oco do jequitibá o cheiro dominante era o de borracha e cadernos, na espinhosa aula a Crispim sobre adversativas e orações subordinadas. A nossa agônica urubu, que só muito depois fez questão de dizer que se chamava Emília, dormiu, humílima, a um canto a perninha ruim, escura e eczematosa, protegida, a medo, por um leque de asas tensas. Trêmula, ressonava.
E então que foi assim nem que um vapor de gás metano, uréia e emanações carbônicas, entre o cheiro a salobro e ao encharque da lama, um bafo atômico invadiu nosso oco e refúgio, a câmara e ninho onde habitamos, lar, abrigo, sala de aula. E Crispim acordou de novo cochilo, elétrico, e saltou para fora, o fugitivo do incêndio Andraus, aos pulos e corcoveios Socorro!!! Socorro!!! Dona Coruja, Professora, a urubuzinha morreu, a urubuzinha morreu faz mais de hora...
Nada, nada disso também atingida pelos súbitos vapores, ainda que claudicante, tentou também ela, Emília, sair de nossa caverna, a se livrar dos gases e dos baixos odores, agarrando-se ao meu, quero dizer, à minha cauda, onde descobri, aterrada, que, toda ela, a cauda inteira, e parte das costas, sem que eu percebesse, Crispim, dormindo, borrifara por úmido pum, desses que chovem e onde caem empesteiam.
Ah, o Macaco!





