Wilson Bueno Novos Koans Arquivo Folha Koans, digo de novo, são microestórias, miniparábolas, com que uma das mais luminosas vertentes búdicas, o zen-budismo, funda os seus ‘‘preceitos’’, sendas que podem arrancar um discípulo atento do sono para a vigília, do sonho para o despertar, conduzindo-o ao ‘‘céu daqui’’, ao céu deste lugar, pois para o budismo só nossa passagem cá por este vale de lágrimas é o que conta, exalta e consola. Fazer da vida, da breve vida humana, sempre reiniciada em sucessivas ‘‘reencarnações’’, brusca flor da eternidade, é o que querem estas estórias imantadas da humaníssima busca de um Deus que dance e celebre em vosso coração a dança alegre de existir. Por uma única e estreita (estreita?) passagem – a da poesia como ofício de viver. Quem se habilita? - - - Armadilhas da paixão Depois de cinco dias de severo jejum, o jovem discípulo entra sorrateiro na cozinha do mosteiro, com o claro propósito de enganar a fome cruciante com ao menos uma maçã. Sem que isto signifique, de modo algum, a intenção de desistir do seu determinado projeto mas apenas o desejo de torná-lo suportável e assim, inclusive, alcançar concluir, com êxito, a ‘‘tarefa’’ a que se impusera. Precárias são as pulsões humanas. E quase sempre enganosas... Topando na cozinha com o mestre-cozinheiro, gordo e de luzidia calva, o jovem discípulo, enfraquecido pelo jejum, vê nele o Buda e curva-se diante do Deus como quem acabou de entrar num céu cristão. O mestre-cozinheiro, que além de gordo e de luzidia calva, é um acabado sábio, não hesita: – Não é assim que se encontra o Buda, meu jovem... – Cinco dias de jejum, esta súbita iluminação e ainda me dizes que não é assim que se encontra o Buda? É bem como nos koans antigos: depois de muitas privações, venho aqui atrás de uma maçã, apenas uma maçã, para poder prosseguir o jejum e me vejo, através de ti, frente a frente com o Buda. É a surpresa, o satori, a iluminação! – Não, tudo o que a tua fraca carne vê nesse momento é uma suculenta maçã e um gordo cozinheiro. – E o Buda que és, não vejo? – Não. Só poderás enxergar o teu próprio Buda, dentro de teu coração, quando não existirem mais maçãs e nem gordos cozinheiros. E, gentil, levanta o pano que cobria uma tigela e dali retira e estende ao discípulo faminto, robusta coxa de pato – sangrenta e crua. - - - Jardins Peregrinos O discípulo se propõe a aprender a cuidar das flores do mosteiro com o mais célebre de todos os célebres mestres-jardineiros que jamais existiu em todo o Tibet. Para tanto, viaja três anos seguidos sem nunca deixar de semear jardins por onde passe, em busca de Tai Pu. Por esses imprevistos da sorte, a cada vez que está próximo de alcançar a cidade do mestre-jardineiro, este se muda para outra distante e desconhecida aldeia, chamado que é, com frequência, sobretudo para conhecer novos jardins e novos jardineiros. Ao chegar em Ti Chiang, depois de muitos jardins precariamente semeados pelo caminho, exausto e já decidido a abandonar a empreitada, o jovem monge é informado que o mestre-jardineiro não foi muito longe, tendo saído há poucas horas com destino a uma aldeia bem próxima dali. O discípulo sente revigoradas todas as forças – nunca estivera tão perto de encontrar Tai Pu. Sem mais delongas, na estrada já, atrás do mestre, longe vê dele o vulto magro na distância. Cada vez mais rápido, embora ultrapassados todos os limites da exaustão, começa a acenar e a gritar por Tai Pu. E quando este percebe, velhíssimo embora, retorna do caminho, quase correndo, também no limite do que parecia um enorme cansaço, vindo em direção do jovem monge. Ao se encontrarem, no meio da estrada, o discípulo, antes de desmaiar, ainda consegue ouvir nitidamente de Tai Pu: – Mestre-jardineiro! Mestre-jardineiro! Por que foges de mim? Há três anos eu vos procuro para aprender convosco a arte de cultivar jardins, do modo como fazes, sem deixar de ser, assim como vens demonstrando a perseguir-me os rastros, um monge andante e peregrino... Fácil cultivar um jardim que regamos todos os dias... - - - Sol do meio-dia – Mestre, o que é o zen? – Estás vendo aquela estrela? – Que estrela, mestre? A única estrela ao meio-dia é o sol! E ele não pode ser o zen. Olhar para o sol, a esta hora, cega. – O zen é não ver o sol. – Como assim? – O zen é só a estrela que o sol é agora.

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