Wilson Bueno Perverso Psiquiatrismo (O Ovo da Serpente) Conversei, na semana, com (revoltada) amiga de longo tempo e uma das mais importantes psiquiatras paranaenses, notoriamente especializada no trabalho com dependentes químicos - esta palavra horrível e que serve para designar até mesmo a dependência por uma substância nada ‘‘química’’, no sentido ‘‘fármaco’’ do termo, que é a maconha, por exemplo. Acho que o psiquiatrismo vigente já começa errando por aí. Não sabe sequer dar nome aos bois. A verdade, gentil leitor, é que a ditadura acabou mas não acabaram os métodos brutais com que, impotente frente à multiplicidade do ‘‘fenômeno’’ humano, o psiquiatrismo vigente tenta, atabalhoada e canhestramente, ‘‘conter’’ o que foge à regra, o que escapa à norma. Da camisa de força à lobotomia (prática muito mais comum do que se pensa, inclusive, pasmem!, em alguns hospitais curitibanos), da substituição de drogas ilegais por drogas controladas por médicos sinistros, do comuníssimo eletrochoque ao mais que comum abuso sexual de doentes mentais ou de tão jovens quanto desorientados ‘‘adictos’’ por terapeutas mais doentes do que seus respectivos pacientes, o panorama visto da ponte, leitor, é absurdo, cruel e aterrador; o sinal da Besta, creiam, no pátio dos hospícios. Se a saúde como um todo está no fundo do poço no país de FHC, o leitor há de entender em que pé andam, com raras exceções, as instituições psiquiátricas nisto aqui que é além que o Haiti... A cidadania que se preze como tal tem que vir a público, urgente, para rediscutir o papel do agente de saúde mental neste país de trânsfugas e proxenetas, de psicólogos que sugerem ter comprado na esquina os seus diplomas, pelo gritante despreparo, pela não solução de seus conflitos pessoais, condição primeira, - está provado e a lógica confirma -, para ‘‘tratar’’ a doença alheia. As faculdades de meia-tigela despejam, a cada ano, no mercado, milhares de pseudos psicoterapeutas e falsos psiquiatras que ‘‘potencializam’’ a sua ‘‘doença’’, no mínimo sob a forma da prepotência, da arrogância, promovendo, a olhos vistos, um verdadeiro massacre contra os ‘‘loucos’’, os jovens ‘‘dependentes’’ e os conflituados inocentes que perambulam pelas vielas deste país triste. Acabo de sofrer em família a prova disto tudo e permita-me, leitor amigo, o desabafo, ainda que estas linhas não pretendam, ao menos hoje, contar a terrível história de um afilhado cuja saúde esteve gravemente ameaçada, estes dias, pelo ensandecido e mercantilista psiquiatrismo vigente. Não há leis que limitem a atuação dos agentes da barbárie - qualquer psicologozinho ou médico psiquiatra feito nas coxas parece ter mais poder hoje do que um sargento possuía ao tempo da ditadura militar que nos comeu o fígado e a alma. Não pensem, contudo, que ela, a ditadura, acabou; não, senhores, está muito presente (e terei condições de prová-lo!) no hospício da esquina ou na clínica do bairro chique em que os filhos da classe média são dopados de suas contradições e de seus conflitos familiares por terapeutas ansiosos e dinheiristas. Isto entre os ricos; porque em meio às hordas de miseráveis, a tarefa com vistas a decretar a morte civil de doentes mentais e ‘‘viciados’’ ( de alcoólatras a dependentes de crack) é delegada em exclusivo ao psiquiatrismo vigente. E este, paciente leitor, deita e rola - enfermo e carente, perverso e desamparado. Cuidado, senhores, com o desafeto da esquina - será suficiente que ele o julgue ‘‘louco’’, ‘‘viciado’’ ou ‘‘dependente’’ para, apoiado por um seu familiar e em conluio com o primeiro psiquiatra (a maioria, ao menos no Paraná, pré-Charcot, e para quem Freud ainda é aquele ‘‘judeu siderado de Viena’’...) decretar que tudo que você fale ou diga em defesa própria, inclusive o argumento magno de que você não é louco, é a prova maior de vossa insanidade. Nenhum louco é louco de ‘‘assumir’’ que é louco - justificará o psiquiatrismo vigente, o aparelho de eletrochoques no bolso do jaleco. Subjetividades. A sua e a minha vida ficam girando em torno de conceitos abstratos, ‘‘particulares’’, à mercê da ‘‘avaliação’’ e do ‘‘diagnóstico’’ de torturadores mentais e não de pessoas das quais se espera um mínimo de senso e preparo. Os dados estão lançados - há quinze anos da mais sinistra ditadura brasileira, e há décadas da morte do famigerado Dr. Alô Guimarães, ainda não temos leis para conter, isto sim, tarefa urgente e inadiável, a sanha macabra do psiquiatrismo vigente - arbitrário sempre, invariavelmente bestial. Assim que possa, e tenha dados mais concretos em mãos, volto ao assunto com uma carta aberta, na imprensa nacional, ao ministro José Serra. Depois da máfia dos laboratórios, das quadrilhas que tomaram de assalto as redes de farmácia, está na hora de mexer no tão apodrecido quanto letal (e macabro) psiquiatrismo brasileiro. Até depois do Carnaval! Se sobrevivermos aos psicólogos de plantão...