Wilson Bueno
ReproduçãoDiário de Bordo
As noites, a cavaleiro do verão, passavam velozes na Araraquara daquele tempo, ao redor do poeta Uilcon Pereira e de suas estórias entranhadas de feroz encanto. Dificilmente detectávamos a verdade documental das coisas, nesta tênue fronteira que Uilcon Pereira costumava instaurar entre ficção e realidade.
Era, deste modo, o nosso compadre, precocemente falecido, um mentiroso olímpico, pudéssemos qualificar como mentira as verdades profundas do poeta Uilcon Pereira, autor, entre outras obras de inquestionável saber e sabor, do impagável Biúte e do não menos impagável Tratado de Filosofia das Espécies, todos editados por ele mesmo, em gráficas de fundo de quintal.
Contava-nos Uilcon, naqueles anos duros, uma estória de amor à gênese dos homens, estória índia cultivada pelos pacíficos parirís do Alto Xingu, e que tem como cenário o começo do começo do mundo, antes mesmo do surgimento do próprio Deus dos nativos, quando a Terra, feita só de nuvem, aguardava, paciente, seu Dono e Mentor - o Tupã criador de tudo.
Acontece que, muito apressada, uma estrela surgiu do nada e, piscando com desusado fulgor, parecia anunciar o próprio Deus, este que viria depois para pregar no céu a grande Lua e o seu reverso diurno, o Sol, além, claro, de todos os astros do firmamento, sem contar tudo o que na Terra existe - da minúscula formiga sirií, de ardido ferrão, aos grandes animais da floresta ignota.
Assim que a grande mão de Tupã surgiu, pronta a modelar o Universo, a primeira coisa que fez foi esmagar nos dedos a estrelinha atrevida, pois ainda não era a hora de no céu fincar estrelas - e aqui o poeta Uilcon Pereira juntava o polegar e o indicador, alfinetando com eles, inúmeras vezes, a noite morna de Araraquara.
Isto posto, Tupã começou a criar tudo o que na Terra há, esmerando-se em fazer nascer do chão os índios parirís, os quais iam surgindo com destros braços e hábeis olhos. O problema é que para cada parirí criado, e eram muitíssimos, sem que fosse a vontade de Tupã, nova estrela no céu fulgia, em tudo semelhante à primeira estrela que aparecera antes mesmo da mão do Deus.
Bastante contrariado, narra a lenda índia, Tupã deu uma ordem muito severa - não criaria mais nem um parirí enquanto continuasse ocorrendo tamanho desperdício de estrelas. Os parirís que estavam por nascer, dizem, gemiam e estertoravam, aspirando erguer-se do Nada o mais depressa possível. Mas Tupã mantinha-se irredutível, o olhar cravado no céu.
Foi aí que aconteceu o fenômeno inverso - decidindo-se por reiniciar o trabalho da criação, a cada novo parirí com destros braços e hábeis olhos, uma estrela se apagava de pronto, luzindo, a gemer, e feérica estiolando-se no céu, risco de luz, estrela cadente. Revoltado contra o atrapalho no trabalho, Tupã insistiu até não restar mais nenhuma estrela e sobrarem parirís por todos os lados.
O problema é que os parirís, igualmente contrariados, exigiam de Tupã, cada qual, sua estrela, mas Ele, dando os trabalhos por findos, retirou-se à sua caverna de luzes, o mundo pronto e acabado, mas sem nada no céu, além do Sol atrás da pálida Lua - nenhuma estrela, por menor que fosse, fincada à imensidão do azul.
Aí é que ocorre o mais belo desta estória brasileira, interpretada muitas vezes com requinte de ator pelo saudoso Uilcon - subindo um nos ombros do outro, os parirís alcançaram o céu; e, cada um deles cuja cabeça no céu tocava, por desígnio de Tupã de imediato se convertia, doce vingança, em nova estrela.
Por isso os parirís são tão pouco numerosos, de famílias escassas e quase em extinção - só os que escaparam de virar estrela, por estarem embaixo sustentando os demais, continuaram parirís toda a vida, pela vida afora, a entoar cânticos em louvor de Tupã mal luza em prata a velha Vésper dando passagem à Lua com seu cortejo de astros.
Uilcon Pereira não há mais, um pássaro pousado ao ombro no céu que lhe aconteceu. O resto eram as estrelas da noite antiga, mas tão antiga, na Araraquara daquele tempo, - lá fora o Horror Médici a rugir -, que eu não sei mais se Uilcon existiu de fato ou foi apenas uma invenção do vento.





