Arquivo FolhaVenturas e Desventuras de um Turista Amador
Não precisa falar como foi a primeira manhã em Praia de Leste – matinal e exuberante, o cunhado foi o primeiro a levantar, antes mesmo da mãe dele, dona Larissa – mãe dele e sogra de minha irmã, nunca é demais lembrar...
Casa pequena, a quase um quilômetro da praia, a mim me coube um quartinho abafado que o cunhado teimava em chamar de ‘‘independente’’ só porque ficava junto da cozinha, com saída pela área de serviço. Os gêmeos (meus sobrinhos Acir e Lenir, lembram?) dormiram num colchonete na copa; a sogra da mana, que é claustrofóbica, não admitindo quartinho nem quartões, se ajeitou no sofá da sala; e o inefável casal ficou mesmo com o único quarto da casa.
Meu cunhado, ilustrado leitor, se literalmente transcrito para a ficção, os críticos literários, que pouco ou nada sabem das coisas, iriam dizer tratar-se de uma personagem exagerada, sem verossimilhança. Pois, acreditem, tendo sido o primeiro a levantar, foi de cama em cama sacudindo todo mundo, radiante, estival, quase um adolescente. ‘‘Tá o dia mais lindo do mundo, gente! A praia nos espera!’’ Vestia uma sunga preta, com a cueca, isto mesmo, pasme, leitor, a cueca, por baixo, sobrando na altura da cintura – pudéssemos chamar de cintura àquela adiposa faixa entre um ‘‘pneu’’ e outro.
Quando a mana, bocejante e de roupão cor-de-rosa, indo na direção do banheiro, deu de frente com o marido na sala, nada falou, e nem foi preciso, posto que imprimiu à cara o seu ar mais incrédulo e espantado. E ele, o cunhado, foi rápido – ‘‘Isto é pra proteger as partes, mulher. Você também devia pôr calcinha debaixo do maiô... Você não viu na televisão o médico alertando para os perigos de usar lycra? Lycra assa e dá micose...’’
Acordada pela altissonância matinal do filho, tentando encontrar uma chaleira para pôr a ferver a água do café, da porta entreaberta do quartinho dava para ver Dona Larissa mexendo-se, na cozinha, gorda e patusca. Os movimentos do pescoço limitados pela dor na coluna, não me dei contudo por vencido, e num só impulso do corpo, pus-me de pé. Antes continuasse deitado.
Os gêmeos, meus sobrinhos, indiferentes à azáfama matinal da casa, dormiam profundamente, ambos de barriga para cima e de boca aberta, de novo entre-enroscados um no outro, meio indiscerníveis – quem o Acir e quem o Lenir, acho que nem o pai, meu cunhado, alcançaria saber.
E não sei se movido por esta provável dúvida ou porque seja mesmo a personagem que sempre foi, o marido da mana, em pé à beira do colchonete, a cueca sobrando ainda mais da sunga, o barrigão pornográfico, com uma canequinha derramava, meticuloso, um filete d‘água na boca aberta e ressonante acho que do Lenir. Ou seria na do Acir? Só sei que os dois levantaram num pulo, enquanto o cunhado, este ria, dobrado em dois, ria e arfava, arfava e ria e sem conseguir emitir palavra, e sufocado de riso, apontava com o dedo os meninos, murmurando qualquer coisa que ninguém entendia, nem mesmo eles, seus filhos. Acho que falava ‘‘os biguás, olha a fuça dos biguás...’’ Qualquer coisa gaúcha, isto era... Ah, o meu cunhado.
Café na mesa, Dona Larissa chamou ‘‘a gentarada’’ para o desjejum, menos a mana que tinha ido à venda mais próxima atrás de mortadela. Para a mana, desjejum só se faz com pão, margarina e mortadela. Aprendeu isso com o meu cunhado, e não abre. E este, para não desmentir tudo o que se pensa ou se possa pensar dele, o corpanzil estirado na varanda sobre uma esteira, lambuzado de óleo, tinha, juro, um tijolo sobre o barrigame, que subia e descia, a movimentos sincopados.
‘‘Abdominal, filho... Não me atrapalhem as abdominais...’’ – foi o que explicou o cunhado ao curioso Acir (ou teria sido o Lenir?). O resto da pândega foi logo cedo na praia, mas esta já é outra história, de um turista amador, sem dúvida, mas só Deus sabe o que feita de bolhas na pele e vexame, areia, cerveja, muita cerveja, areia de novo, e a mana, quase nua, esquivando-se do topless a que lhe obrigava o marido, nosso cunhado.
‘‘Tu tem peito, mulher! Peito é pra isso...’’
Viche Maria!

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