Wilson Bueno
Venturas e desventuras de um turista amador
Arquivo FolhaComo faz todos os anos, a família desceu, coesa e muito excitada, para mais uma temporada de férias no litoral. A mim me coube, no acento de trás da velha Brasília do cunhado, o lugar do meio entre a sogra de minha irmã, isto é, a mãe do meu cunhado, e os gêmeos, que são, gentil leitor, a fina flor de uma impagável sobrinhagem Acir e Lenir, nove anos de idade, espremidos ambos à minha esquerda. Antes não tivesse sobrinhos, nem irmã, nem cunhado.
Logo na saída de Curitiba, em direção às praias, o indefectível posto para a coleta do pedágio senhora vetusta, numa reluzente Veraneio, não se sabe se por atrapalho ou ostentação, nesses tempos de dinheiro escasso (e pescadinha a 7 reais o quilo!), depois de procurar por mais de cinco minutos a carteira dentro da bolsa, de lá puxou uma nota de cem.
Isto mesmo, comedido leitor, a mais irreal das cédulas brasileiras a voadora, a fantasmagórica, a quase inexistente nota de cem reais!... Por vingança ou incompetência mesmo, a mocinha do pedágio, aboletada no alto da cabine, não teve nenhuma pressa em lhe fazer o troco pingavam moedas de um real, cédulas de 5. Em razão do calor, da amplidão da mãe de meu cunhado e o desassossego dos magros porém agressivos joelhos dos gêmeos, fechei os olhos com força e assim permaneci, só voltando a abri-los quando o vento da serra já nos salvava dos quase 40 graus à sombra (à sombra?) no interior do valente veículo do insopitável cunhado.
Ah, este, o cunhado, nem queiram saber três dias antes da viagem já se enfiara na bermuda branca estreada no Réveillon e não mais tirara a dita cuja que, à esta altura de nosso campeonato e quilometragem, exibia uma cor assim entre o bege e um severo sépia. O camisão do Paraná Clube sobre a barriga, embora espalhafatoso, tinha o dom de encobrir um pouco o desleixo imperdoável e esconder da mana o que seria motivo para novo entrevero conjugal o desligamento do marido, uma coisa quase patológica. Ainda que ao volante ele seja um craque para gáudio nosso, seus estóicos passageiros.
Com a mana, coitada, não deu outra no meio da serra atacou-lhe o labirinto e por mais que tapasse o nariz e forçasse a saída de ar, não conseguia liberar o ouvido. Surda e tonta agarrava-se ao painel, enquanto o cunhado dirigia e ao mesmo tempo sacudia o corpo todo ao ritmo da música mal-sintonizada acho que na Educativa. Destampou-os, contou-me depois, um dó de peito do marido, barítono amador, quando este tentava segurar no fôlego outro dó de peito, mas do Plácido Domingo. Ah, as óperas e operetas da Educativa!
Ao meu lado, a sogra da mana, Dona Larissa, entre um cochilo e outro, acordava quase em pânico Ainda estamos na serra, gentarada? Dona Larissa sempre chamou mais de duas pessoas de gentarada. Mas como ninguém escutasse, contentava-se em soprar o cabelo ventando na testa e desde então advertindo Lá embaixo, não quero nem entrar em cozinha, ouviram, gentarada? É, ela também tem o péssimo hábito de pluralizar os coletivos, a dona Larissa...
Vai entrar na cozinha só pra fritar o peixe, né, mãezinha?... ironizou o cunhado, o cigarro no bico, o ar mais fanfarrão do mundo. Nada mais leve nem mais feliz que um homem em férias a conduzir a sua família, e um quase mudo concunhado, rumo aos mares bravios do Pontal do Paraná, São Francisco e vizinhanças. À minha esquerda, a perna magra do Acir enroscava-se na perna não menos magra do Lenir e como são gêmeos, nem queira saber, atento leitor, onde a perna fina de quem nem quando nem como. O calor, o novo cigarro acendido pelo cunhado e a mana pálida no banco do carona, pensei fosse ter uma vertigem. Um polvo? Ou os cambitos do homem aranha? Não, só as pernas finas e entrelaçadas dos gêmeos...
Ao sopé da serra, o cunhado decidiu fazer, da encosta, mictório público, no que todos, diga-se a bem da verdade, o acompanhamos. À frente da Brasília, maldosamente sobre os faróis mijaram os gêmeos; a mana, ainda um pouco zonza, sumiu rápida no mato e a sogra dela, meu Deus, acreditem!, meio dormindo, os olhinhos espremidos ao violento sol, mijou atrás da porta entreaberta do carro, mas pensando mijar no asfalto, my God!, mijou mesmo foi todo o assoalho da Brasília.
Perigosamente próximo, percebi a hora em que o cunhado abotoou a braguilha e ficou ainda mais perto, ele que no começo estava bem longe mas foi estreitando a distância ao mesmo tempo em que falava e urinava, urinava e falava, entusiasmado, sobre um assunto que eu absolutamente não conseguia escutar, pelos mesmos motivos da mana, só que em escala mais reduzida. A labirintite é um mal de família.
A bobeira também... E como não seria? Só vi quando o cunhado interrompeu-me o gozo (gozo?) pleno das férias por uns três dias com sua maneira gaúcha de ser, como diz o Pissetti, outro gaúcho com modos gaúchos de ser, desferiu-me tamanha porrada nas costas que a minha coluna recém-colocada nos eixos pelas santas mãos do ortopedista, e mestre em quiropraxia, Antonio Carlos Segui, no Ipaqui, em Curitiba, voltou às dores e à lordose de origem.
Domingo tem mais, caliente leitor. Nossas férias nem começaram...





