Wilson Bueno
As cidades de nossa gaia Terra
Paciente leitor, vem comigo nesta indagação quase fora de propósito: o que tem a ver, por exemplo, o caquizeiro, habitado de sabiás, que da janela do estúdio entrevejo, nesta tarde baldia, com a cidade de Curitiba? Que tensa relação estabelece-se entre o fervente verão, os primeiros caquis maduros que os sabiás devoram deliciados e a cidade em que se vive? E o que dizer desta súbita borboleta cujo movimento de asas há de influir, ao final e ao cabo, para que se precipite a tempestade que há dois dias armava-se sobre o Mar da China?
A estas e outras perguntas aparentemente insensatas encontro resposta num livro delicioso O Jardim de Granito, da arquiteta e urbanista americana Anne Whiston Spirn, da Pensilvania University, lançado há algum tempo pela Edusp. Livro a que volto sempre movido pela mesma e sempre volúpia.
Ali, em cerradas 400 páginas, a delícia da inteligência se soma ao gosto feliz da pesquisa, sem o tédio do academicês responsável pela morte no ovo de nove entre dez títulos publicados por editoras apoiadas pelas universidades pátrias. Anne Whiston Spirn filia-se à honrosa tradição dos poetas-críticos, dos fazedores de arte que pensam o objeto de sua criação com a audácia do artista e o rigor dos saberes acumulados. Nela, em Anne Whiston, o urbanismo e a arquitetura, colocando-se como categorias artísticas, exigem do sonho um compromisso com sua concreção, por mais desafiadora e desafiante se coloque a tarefa. E isto, sabemos, é bem menos simplista do que transformar fantasia em matéria ou projeto em realidade.
Cidades são poemas, conforme Lévi-Strauss em Tristes Tropiques, poemas concebidos com o pecado original da inextricável e patética vocação humana para a morte, este secreto desejo de auto-aniquilação que, entendemos desde Freud, pode tornar a Terra só a velha carcaça de um velho planeta onde um dia mexemo-nos numa azáfama inexplicável. Miss Spirn não deixa de centrar fogo na questão: natureza e cidade são vistas como categorias de oposição e desde tal fulcro lamentavelmente distorcido, a ignorância humana dificilmente concebe que uma e outra se integrem, somem-se e se complementem.
Muito mais do que o nunca desprezível propósito de nossos alcaides de plantar árvores e espalhar parques pelas cidades, o que é uma rima embora não seja completa solução, a rigorosa pesquisa de Anne Whiston radicaliza a cidade faz parte da natureza, integra-a, é sua extensão, o que, ainda segundo ela, invalida todo e qualquer projeto urbanístico que não se ancore nesta premissa. Pensar a cidade em que se vive sem que ela seja a própria natureza é para Miss Spirn um erro essencial.
Um exemplo? As árvores de rua. Há 2.500 anos, Senaqueribe, uma espécie de burgo-metre de Nínive, na Mesopotâmia, já chamava a atenção sobre a importância dos parques públicos e não hesitava em levar a cidade até as árvores, estendendo-a, através de cuidadoso planejamento, aos bosques circundantes. Se as árvores não vêm à cidade, a cidade vai às árvores. Uma intuição exemplar de que a natureza citadina em nada difere da natureza mesma. O que fizeram, neste aspecto, as cidades modernas? Empurraram para as zonas de floresta, os párias, os migrantes, os desempregados, que devastaram, em nome de legítima sobrevivência, o meio-ambiente. Não sem explicação, na maioria das cidades do mundo os subúrbios são áreas tristemente desoladas.
Fosse este espaço ilimitado e ilimitada a vocação para abusar de vossa paciência, tolerante leitor, iríamos bem longe nas reflexões em torno de O Jardim de Granito. Só para cutucar-lhe a curiosidade: o capítulo sobre ratos, pombos e cães, que com o homem dividem a presença nas cidades desde o princípio, é um destes autênticos manuais de curiosidade para se ler, reler e guardar.
Mas o momento mais sublime do livro é este em que Anne Whiston Spirn lembra Vitrúvio, o célebre arquiteto romano que já no século I d.C. criticava: Militene, na ilha de Lesbos, é uma cidade construída com magnificência e bom gosto, mas sua posição demonstra falta de visão. Lá, quando o vento sopra do sul, as pessoas adoecem; quando vem de noroeste, ficam com tosse e com o vento norte, se recuperam, mas não podem permanecer nas vielas e ruas, devido ao frio rigoroso. Sem gente nas ruas, a cidade deixa de existir.
Dá para entender, acho que dá, o que este caquizeiro, farfalhante de novos e velhos ventos, e habitado de sabiás, tem a ver com a tarde em que já plena acontece, neste honrado burgo de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, a festa de sol e passarinho do resplendente verão a aragem do entardecer, que é pura carícia, e as folhas, tocadas pelo vento, que sem aviso desprendem-se dos galhos, rodopiam e caem...





