Os poemas espanhóis de Moacir Amâncio
O paulista Moacir Amâncio é uma dessas figuras de poetas – inquietos, incansáveis buscadores. Santa insatisfação, esta, que o obriga a experimentar sempre, sem perder a razão do poema jamais. Ora se dá com ‘‘prosoemas’’ de ornitorrinco, intrigantes e desafiadores; ora quer, do poema, a fulgurante radiografia de sua existência-coisa, como em ‘‘Do Objeto Útil’’ (Prêmio Jabuti, Iluminuras, 1993) ou o desenho exato da matéria-mundo em ‘‘Figuras na Sala’’, também lançado pela Iluminuras.
Em Moacir Amâncio, tudo é pretexto para fazer, da palavra, mais que vaso comunicante, ‘‘ordem do dia’’, o poderoso instrumento, – aliás sua função mais ardente, – em favor deste ‘‘diálogo de abismos’’ que é o verso no papel. Só a poesia, qualquer poesia, mesmo a da prosa mais chapada, capaz de submeter a palavra, domando-a feito se doma um cão. É aí, atento leitor, que as xucras palavras de dicionário acabam bailarinas e de asas, contando, da melancólica história humana, o nosso enredo insensato. Por isso a poesia é um inutensílio absolutamente indispensável, e existir sem ela é fazer de nosso mundo muita vez sombrio um mundo ainda mais soturno, carente e precisado.
A depender do poeta Moacir Amâncio, isto não acontecerá nunca, sobretudo agora em que, já circulando pelas principais livrarias brasileiras, ele nos dá a sua reunião de novos poemas – ‘‘Colores Siguientes’’ (Musa Editora, 46 páginas), a percuciente lavoura de suas ousadas espanholices. Isto mesmo, gentil leitor, são 36 poemas escritos diretamente em espanhol, pura música, o som e o ouro da palavra mais exata. Assim, de cara, exemplo colhido ao acaso: ‘‘Hay un motivo claro/para la mano, pez/que nos lleva adelante./ No sabemos el camino/ni los rumbos; las cosas/están donde están/com sus motivos claros.’
Não pensem contudo que, pela simples razão da contiguidade das línguas (espanhol e português), ele tenha se decidido pela primeira: não, para Moacir, como para qualquer poeta que se preze, e este vosso escriba com seu já comprovado portunhol de ‘‘Mar Paraguayo’’ talvez seja um pequeno exemplo, o ‘‘tema’’ pede o ‘‘idioma’’ em que aspira expressar-se, posto que, no mundo, algumas vezes palavras fundam sentimentos, e não o contrário. Para ilustrar, basta-nos a lembrança da palavra ‘‘saudade’’, a dizer, por exemplo, uma lusitanice que dificilmente entenderíamos de outro modo. Desconcerte-se: ‘‘saudade’’, só existindo em português, adaptou-se ao brasileiro muito mais pela vizinhança d’alma do que por ‘‘herança’’ e/ou legado linguístico, digamos. Assim, aliás, são as palavras.
É isto que ‘‘Colores Seguientes’’ quer nos dizer, ainda que alguém mais impaciente possa objetar que poemas só nasçam com autenticidade na língua de origem de seu autor, na língua-gênese, sendo impossível a um pernambucano, por exemplo, poetar em alemão. Não, gentil leitor, poetar é, entre outras coisas, fabrico e artesania, o som azul de uma palavra saindo pelo céu da boca ou o eterno murmúrio das onomatopéias loucas, assemelhadas na maioria das línguas, posto que é o ‘‘ruído’’, o ‘‘barulho’’, que se quer traduzido em palavras e não palavras desejando-se ruidosas... Assim o som, assim a fúria. O branco do poema branco.
‘‘Las casas son blancas,/el cielo más blanco/y el campo más/más blanco./// Le falta presencia – /situación de cosa/en libro abierto./// Hasta que la mar/o alas de cigueña/llegue com los vientos/// y explique la cal,/sol del mediodía –/colores seguientes:’
De uma plasticidade que não é nova na obra do autor, ‘‘Colores Seguientes’’ são naturezas-vivas, sillas e lunas, reverso ao revés, manos e párpados, ojos e manzanas, naranja e árbol e, contínuo, como se atravessando todos os poemas, hecho de vidrio y roca, el cristal.

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