Wilson Bueno
Feliz Ano Novo
Primeiro Domingo de 2000. Chegamos, enfim, sãos e salvos, ao ano que, paradigma encantado, mais de uma vez nos serviu como referência do futuro e da persistência nossa cá neste mundo insensato. Ainda que tenhamos andado, você e eu, experiente leitor, sobre o fio da navalha, e palmilhado os ásperos caminhos a caco e cristal, aqui estamos, e examinamos em torno a Vida e os homens, nossos semelhantes, que nela se mexem num bulício álacre. Ufa!, estamos vivos.
Primeiro Domingo do ano 2000, e nem precisava tanto. O século, este, foi um dos mais cruentos da História. Esmeramos em matar e matar e matar, afiamos nossas garras, sofisticamos as armas de destruição e nunca, em nenhum outro século, a exemplo deste, a contabilidade das vítimas inocentes, hipoteticamente alheias à guerra, chegou, não aos milhares, mas ao milhões.
Aprendemos, de vez, a eliminar civis nos cruentos entreveros com que se batem os humanos. A guerra antiga era mais gentil, se é que podemos falar de gentileza em se tratando de guerras, mas, sabemos, a eliminação de populações civis é coisa recente no panorama de nossa mais que extraordinária e bélica esquizofrenia. Se uma lição, acima de todas as outras, extraímos deste século XX que ainda não terminou e que provavelmente não termine tão cedo, esta lição nos desonra, senhora que é da mais cruel selvageria.
Provamos, de novo, delicado leitor, que a mão do homem, apesar de Pablo Picasso e Chagall, de Proust e Kafka, Le Corbusier e Gaudí, apesar de Rosa e Lispector, Portinari e Jackson Ribeiro, Einstein e Fleming, apesar de Gandi, Freud, luzes irrefutáveis neste século de sombra e suplício, esta mão ainda é a mão do babuíno primevo só unhas e esgares, sem ter sequer, dos macacos, a deles inextricável graça. Para lembrar Cioran, ainda que lhe recaia a pecha de cético profissional, o ser humano não passa de uma uma utopia do Ser.
Amargo? Será amargo constatar que exclusivamente num episódio isolado da Primeira Guerra Mundial (1914-1919), o massacre que os turcos otamanos perpetraram contra os armênios, por exemplo, mais de dois milhões de civis armênios pereceram baixo requintes de crueldade nunca vistos? Amargo ou desolador?
Que cético? Cioran foi um sábio olhando com duros olhos de ver a Humanidade incurável. Sem desprezar jamais a esperança, o que não é bem um contra-senso, senão o que o poeta antigo chamou de a vertigem de nossa pobre circunstância o roçar da asa do Anjo, a agrura nossa que insistente aposta no porvir. A ode grega proclamava que as águas ferventes do Letes só podiam dar em rio sereno... Que poema é este feito de som e de fúria e que não perde de vista o insustentável encanto do Deus?
Jorge Luis Borges, que foi um homem feliz, costumava dizer que mais do que ler e escrever, a Vida lhe dera a suprema chance de experimentar o Tempo, sentindo-o sem vê-lo e vendo-o a cada (im) palpável sentir, e assim, no olho do paradoxo, poder contar dele, do Tempo, o fluir dos dias e das noites, ele que é só uma idéia incontável...
Contemos, pois, a chave das horas. Eu e você, paciente leitor, vagos dessa vagueza morna que é o entrevisto fascínio da eternidade que, aliás, só pode ser suposta a partir do Tempo que é dela, da eternidade, apenas um pedaço.
Feliz Ano 2000, leitor amigo, meu cúmplice e meu herói!





