Wilson Bueno
Uma tigela de arroz para Dan Lang
ReproduçãoAo tempo em que o Tibet pertencia aos tibetanos, e não aos invasores chineses, os monges-mendigos eram tidos e havidos como a expressão maior da religiosidade búdica, se é que podemos chamar de religiosidade a esta filosofia da busca como tão bem definiu o budismo um dos seus grandes experts - o orientalista alemão Otto Henningut.
Pois os monges-mendigos, alardavea-se, eram capazes até mesmo de transformar pedra em flor, para lembrar um cândido provérbio, mas não descuidavam nunca de que este dom tinha que ser exercido com extrema parcimônia, sob pena de o perderem em definitivo. Assim, nas grandes crises de escassez por que passou o Tibet, não era de todo impossível algum monge-mendigo morrer de fome, negando-se, até o fim, a exercer em proveito próprio o chamado Terceiro Talento, que era este de transformar vento em água, água em céu e, um pedaço de céu, numa tigela de arroz...
Posto à prova numa de suas errâncias pelos mais altos desfiladeiros do Himalaia, o velho monge-mendigo, Dan Lang, famoso por suas curas e alguns comprovados milagres, no quinto dia da mais cruenta fome, se decidiu por transformar um punhado de neve num pedaço de pão. Acontece que o monge era, o mais das vezes, muito atrapalhado. E, assim, a mutação acabou virando uma pândega rezava, as mãos postas na posição búdica do gashô, sobre o punhado de neve e, ao cabo de alguns segundos, este se transformava num cardo; a seguir, num cacto; depois, num pássaro; e houve até a vez em que a neve se converteu no mesmo punhado de neve, só que azul, refletindo intenso o vasto céu himalaio.
Lembrou-se Dan Lang, então, de um antigo mantra que lhe fora ensinado, na mocidade, por NguioVam Nin, monge-mendigo vietnamita, tão absolutamente iluminado que era capaz de ensinar aos abutres do céu o canto da cotovia e que, perto de reencarnar, alcançou, rara façanha, adiar por três vezes o desenlance. Isto, sabemos, é quase um pecado entre os budistas mas, para Nguio ficou sendo só um modo de demonstrar a eficiência com que praticava o Terceiro Talento.
Treze vezes Dan Lang recitou, contrito, o mantra aprendido com o mestre-mendigo e, para sua surpresa, o que viu lhe surgir à frente foi indescritível o punhado de neve rápido derreteu em sua mão, tornada água quase suja o que pretendia fosse transmutado num pedaço de pão. Aquilo ali não tinha nada a ver com o Terceiro Talento pensou um intrigado monge. A neve se transformara em água pelo fato bem simples de que suas mãos estavam quentes e é da natureza da neve se evaporar ao calor, concluiu em silêncio.
Naquele dia decidiu o monge não mais buscar a transmutação da neve em comida, ainda que a fome lhe tomasse corpo e espírito com uma violência de que só a fome é capaz. Acertou consigo mesmo deixar, para o entardecer, novas tentativas para a prática quem sabe então eficaz do Terceiro Talento.
Nem bem os primeiros raios de sol começaram a baixar atrás dos altos picos, Dan Lang retomou os mantras, novo punhado de neve na concha das mãos fracas. E, mil mantras depois, as mãos úmidas e ainda vazias, assim que descerrou os olhos, viu, muito nítido, sentado à sua frente, na posição do lótus, ninguém menos do que o impagável mestre-mendigo Nguio Vam Nin.
Mestre, você aqui? exclamou um atônito Dan Lang.
Não, eu não estou aqui sorriu, cínico, Nguio.
Se não estás aqui, onde estás?
Não percebes que estou só em vossa imaginação faminta, não mais que nela?...
Aí, vendo que Nguio lhe estendia uma fumegante tigela de arroz, Dan Lang ficou ainda mais frustrado, ciente de que tudo não passava de uma miragem e que quando fosse tocar a tigela, esta fatalmente se desvaneceria em suas mãos, mais fluida que a neve da alta montanha.
E a tigela de arroz, mestre? Ela existe, não é? Fruto do Terceiro Talento...
Não, ela também não existe, mas será com ela que matarás vossa fome, meu atrapalhado Dan Lang...
Só então o monge faminto compreendeu tudo e lançando-se à tigela de
arroz devorou-o avidamente. Saciado e recomposto, percebeu que Nguio não estava mais lá, e nem nunca estivera...





