Wilson Bueno
À margem da história
Relata a crônica literária que foi numa fria tarde de outubro de 1910, próximo à Gare du Nord, em Paris, o encontro, para sempre célebre ainda que até hoje misterioso entre o então pintor Marcel Duchamp e o então adolescente André Breton. Este, aos 14 anos, sequer sonhava vir a se tornar lume e guia de uma das mais célebres e celebradas correntes artísticas deste século o Surrealismo, mas já se interessava vivamente por tudo o que escapasse à norma na buliçosa Paris dos anos 10. Duchamp, este iniciava carreira.
Chovia um chuvisco contínuo e gelado naquele difícil outono parisiense quando Breton cumprimentou, nervoso, o também jovem Marcel, indagando dele onde estavam as telas aleatoriamente pintadas pelo rabo de um cavalo que, três dias antes, no concorrido salão de Madame Bizet, lhe prometera mostrar no encontro que ora se dava nas imediações da Gare du Nord.
Duchamp, então apenas um esforçado pintor cubista, conduziu o adolescente Breton até o café mais próximo, que a crônica não registra o nome, mas onde, sabe-se, comeram salsichões e tomaram o bom vinho da Borgonha. Foi neste exato momento que Marcel Duchamp resolveu revelar que ele não era Marcel Duchamp mas sim seu irmão, o escultor Raymond Duchamp-Villon.
Assegura a crônica literária que se travou então o seguinte diálogo, numa pequena mesa interna do Café, posto que continuava a chover a fina chuva como agulhas:
Lembro-me bem, foi a você, Marcel, e não a Raymond, que fui apresentado no sarau de Madame Bizet...
Embora meu irmão, detesto Marcel, um egocêntrico e, depois, cubista, como todo egocêntrico... Por favor, chame-me pelo nome Raymond, Raymond Duchamp-Villon, escultor e seu criado...
Penso que estás brincando com a minha cara, senhor teria dito um já exasperado Breton. Conheço seu irmão das fotos de Nadar e sei que não és Raymond...
Nadar está morto. E depois tem que Nadar gostava dessas ilusões de ótica... Um fotógrafo, meu caro!... De que mais pode um fotógrafo gostar?
O fotógrafo pode gostar, mas a fotografia se recusa ao jogo... Não confundiria sua cara com a de vosso irmão - teria insistido um agora curioso Breton.
Você é que pensa, meu amigo... Nadar fez-me uma foto com minhas esculturas na qual é difícil dizer quem o artista e quem a escultura, tamanha a invasão de luz captada no atelier...
Então, na hipótese de que não sejas Marcel, quem é Marcel Duchamp?
Já lhe disse, só um ser centrado em seu próprio umbigo e inclinado a ver no cubismo o supra-sumo do novo, a vanguarda das vanguardas... Já não se fazem mais Renoirs como antigamente...
Se assim é, por que o desejo de me confundir, senhor... senhor Raymond? Por que não se apresentou no sarau com seu próprio nome?
Porque julguei que desdenharias meu trabalho... Os jovens de hoje só pensam no cubismo e eu ainda exerço a boa e sólida escultura que vem de Rodin e mesmo de seu mestre, Carrier-Belleuse...
Nisto, relata a crônica, um atento André Breton percebe como que nascendo da lapela do paletó de veludo verde-musgo de Duchamp, uma espécie de raro cogumelo escarlate.
Mas e isto aí brotando de sua lapela?
Ah, isto é só uma mágica de Marcel Duchamp, o próprio, muito prazer! Esta engenhoca eu a comprei na Rue des Illiers no Ao Cogumelo Voador...
Mas por que tanta mise-en-scSne? Só queria ver as pinturas pintadas pelo rabo do cavalo... Por que se passar por Raymond?
Pelo fato bem simples de que para chegar a Marcel, só passando por Raymond e seus bronzes... gargalhou Duchamp esfregando o indicador no polegar de modo rápido, contínuo...
E, desde aí, destaca a crônica literária, nunca mais se separaram, constituindo uma amizade sólida e frutuosa que durou até a morte de André Breton em 1966. Marcel Duchamp, um dos maiores artistas deste século, morreria em Paris, logo depois, em 1968, aos 81 anos de idade.





