Wilson Bueno
ReproduçãoLindolf, o Galo
O galo nascera com um nome para deslumbrar os salões - Lindolf and Lindolf Robert Cocoricor. Exímio pianista, não havia ninguém na Floresta capaz de lhe desafiar o estro com que chegara ao nosso mundo insensato. Pinto ainda, e já pinto precoce, tinha composto, neste alvorecer para a vida, nada menos que uma sonata e três peças para cravo. Pinto infante ele era, mas desde então devotado ao galo prodigioso que viria a ser um dia.
Retornando de turnê na qual havia percorrido do Amazonas a Minas Gerais, Lindolf and Lindolf não via a hora de gozar férias, de preferência, claro, entre muitas galinhas. A sina de um galo, principalmente a de nosso Lindolf, além a de compor e tocar, era esta - a de amar sem conta, dia e noite, noite e dia, frangas velhas e frangas novas, não importa, posto quem decide e autoriza, nestes casos, são as cordas do coração. E o rubro coração do galo se decidia sempre por todas, indiferente ao tempo delas sobre a Terra.
Acontece que galinha velha que não mais põe ovos é quase sempre galinha carente, mais carente que as outras que ainda oficiam e dançam, pululam e alardeiam, nas manhãs da Floresta, o alvo fruto de seu ovário tenso. Galinha velha há de resignar-se sobretudo no momento da falha ou do grito. Terna alma cantora, Lindolf and Lindolf Robert Cocoricor, desde cedo, - já disse que fora um pinto prodígio - amou às galinhas velhas com ímpeto sempre novo. Mesmo quando a crista ainda não exibia esta cor vermelho-sangue que faz, de um galo adulto, além que um frangote fulvo, inda mais pianista, capaz de arrancar de um teclado o fugidio encanto da mais dançante mazurca.
Não teve outro jeito - Lindolf, mocinho ainda, inseguro pinto adolescente, compôs para a mais velha das galinhas, mais velha mesmo que sua genitora, o que ficou sendo o hino da terceira idade na Floresta. Ria-se e caçoava o Macaco, sempre ele!, de que até a Onça, que estava muitíssimo velha, cantasse, tristonha, no alto penhasco, a canção que sempre da galinha fora e que falava em ninho sem ovo dentro. Mas o tom, o ritmo e a melodia arrebatavam a todos de tal modo que não houve girafa nem elefanta, zebra ou loba, vaca ou leoa, desde que em fresca madurez, que não tomasse, aquele tempo, para si, a homenagem originalmente destinada às galinhas; pior - a galinhas velhas de gasto ovário. A canção falava na liberdade. Lindolf and Lindolf era mesmo precoce; e muito inteligente. O Macaco é que já era um cínico.
Senão, vejam - antes mesmo que Lindolf and Lindolf Robert Cocoricor desembarcasse em retorno da estafante turnê já mencionada, o Macaco, de galho em galho, - ah, sempre ele! -, anunciou a toda a Floresta que o galo voltava com CD novo na maleta. Desta vez exclusivamente dedicado às frangas e que, cruel maledicência!, ridicularizava, agora, as galinhas, posto que se decepcionara, acho que em Juiz de Fora, com nova galinha velha. Ah, que de leviano coração sem crista, o coração de nosso compositor e letrista - espalhava, em refrão, o Macaco, sobretudo ao ouvido das balzaquianas da Floresta.
Não precisa contar a celeuma - assim que adentrou, em seu Audi prateado, os portões da clareira onde viviam os galináceos da Floresta, a bicadas no pára-brisa e, furiosas, contra as janelas fechadas, as galinhas exigiam dele não só o CD mas já e já uma resposta! Afundado no banco do automóvel, Lindolf a nada entendia, mas, experiente, tomava suas precauções - nunca se sabe do que capaz o instável coração daquelas almas bicudas. E teve, bem ruidosa, uma certeza - estavam enfurecidas com a longa turnê que empreendera, mas logo acalmariam penas e asas, ovários e carências.
As frangas novas, nem te ligo!, organizaram um desfile de lingeries exclusivamente para os machos velhos da Floresta, mormente os galos, mas onde também compareceram dos patos aos marrecos, sem falar do Macaco, que não era muito velho mas já pintava o cabelo para não aparecer o grisalho. Ah, o Macaco! Com as frangas novas, sem a concorrência, desleal, do galo, se esbaldava.
Cercado pelas galinhas velhas, Lindolf and Lindolf reprisou que as amava, e diante da intimação onde é que está o CD das frangas, seu colosso velhaco, bicaram-lhe tanto o peito magro, que admitiu, solerte - mas como é que sabiam, quem revelara o fato? - Que fato? - Casara, sim, com franga nova que chegava, para a semana, de barco.
Ah, o Macaco!





