Wilson Bueno
Mistério das luas de Júpiter
Arquivo FolhaViajar estrelas, experimentamos na semana aflita, é, ainda e sempre, viajar no tempo, matéria porosa. Não foi outra coisa o que fez a sonda americana Galileo ao passar nas proximidades de Io, uma das dezesseis luas de Júpiter, revelando a extasiados cientistas terrenos um espetáculo em tudo parecido com o começo do começo do mundo cá em nossa gaia Terra.
Se não, inveje, curioso leitor - na tela dos monitores o que se viu foi a transmissão nítida, como se por uma TV a cabo, do espetáculo de Io explodindo no vasto cosmo os seus mais de 100 vulcões ativos feito fogos de artifício. E era, para esta assistência privilegiada, como assistir, da Terra, a primeira vez. O mesmo cenário de 2 bilhões de anos atrás em que fomos de Io a cópia carbono - o planeta primevo anterior à chuva e aos relâmpagos do céu.
Quando, mendigando do Deus de Jeová a explicação do começo, o poeta bíblico pergunta o que era antes do antes do Gênesis, e o Deus a ele não responde senão lhe enviando o horror e a imundície, a calamidade e a peste, ao Homem ficou bem claro o desígnio do Deus. Fundamentalismos à parte, no expirar deste segundo milênio cristão, o que se viu da sede da agência espacial americana foi além que o profeta pedinte do Velho Testamento, foi ao vivo e em cores um show de rara e surpreendente pirotecnia.
Rios de lava incandescente, fotografaram os cientistas, serpenteavam pela superfície da lua jupeteriana, descoberta por Galileu Galilei, em 1610 - na aurora de um século, nunca demais lembrar, marcado por degolas e devassas - enquanto gases e venenos, quiçá insuspeitados perfumes, envolviam o satélite feito um brinquedo multicor rodando o espaço incalculável. Quem viu, viu de vez e, de novo, pela primeira vez.
Cousa excessiva é cousa demasiada aconselhava Acácio, velhusco e renitente, senhor do óbvio, o nosso audaz Conselheiro; mas claro está que maior que o céu só o céu que lhe vai em cima, para ainda uma vez ficar sob o luso acento o qual, parece, dá às cores do céu um velho encanto, encanto de língua primeva. E nada mais excessivo no monitor terreno do que os excessos do céu...
Fôssemos capazes de inventar monstros para o Cosmos Ignoto a exemplo dos que criamos para o Mar Tenebroso, aquele Mar anterior à descoberta do Novo Mundo, que monstros vigiariam, por exemplo, as crateras fumegantes da lua de Júpiter? Zoólatra esforçado, imagino um ser todo brasa e fuligem, capaz de viver baixo 1.500 graus centígrados, ardente deus do fogo e da violência.
Detalha o repórter científico que a ampla documentação efetuada pela sonda norte-americana de sua passagem por Io é de extrema relevância, sobretudo para as pesquisas, cá na Terra, de nossos vulcões - alguns capazes de nos infligirem inenarráveis prejuízos. Que se recorde, de passagem, Quito, a capital do Equador, sufocada há poucos dias por toneladas de poeira vulcânica. As imagens na TV pareciam de brinquedo, não fosse a tragédia e o desassossego.
Melhor assistir nos monitores da Nasa ao formidável espanto de uma lua que, desde 421 mil e 600 quilômetros, triunfa, sob o flash das câmeras da valente sonda terráquea, o seu milagre de ser - caprichosa; insolente de uma insolência primeira.





