Lições de um Mestre Cantor
André Toshitaro não está mais entre nós, caçador de rubis que Toshitaro era, exímio em narrar koans e, mais que isso, em colecioná-los – o modo oriental como procedia – guardando-os, aos koans, numa pequena caixa de madeira, em pequenas folhas de papel enroladas feito canudo que amarrava com uma fita colorida. A cada cor, correspondia a essência profunda do koan, inscrito na página com sua letrinha regular, incisiva e masculina.
Toshitaro era judoca, faixa preta, segundo dan, mas não houve nesta Terra alguém mais delicado; e com mãos capazes de tocar a pétala da papoula sem lhe macerar a textura. A cada aniversário, Toshi, pequenino, os olhinhos miúdos, madrugava aqui no arrabalde. Fazia questão de que eu estivesse de pé, e bem acordado, para me entregar em mãos a oferenda de novo koan retirado de sua caixa-de-relíquias, a fita de seda com a cor do dia, e, na página, a pungente surpresa de uma lenda viva.
Além de lutador magnífico, André Toshitaro era motoqueiro disposto a desafiar o vento nas ruas da cidade, montado em sua potente Kawasaki. Dela, da moto, dizia ser seu cavalo. E para os que temíamos as suas loucas façanhas, concorrente do vento nas tardes azuis de Curitiba, costumava nos apaziguar os ânimos dizendo-nos, búdico, que não havia nada mais frágil do que andar, pedestre, sobre duas pernas, dois pés e duas canelas... Fingíamos entender o travesso raciocínio de Toshi, nosso mestre e amigo.
Não foi no trânsito nem nas vias expressas, não foi no sinal vermelho e nem na contramão – a morte de André Toshitaro se deu não sabemos sob que punhal instante, o momento em que, sozinho na curva demasiado exígua da estrada, precipitou-se, de seu cavalo, um vôo acrobata sobre o abismo. Os mais íntimos de Toshi não acreditamos propriamente em acidente, senão no seu gosto profundo de ir além que o vento; as suas asas, a máquina que, de ordinário, subjugava. Mas como os ventos não retornam, sendo sempre o vento um novo vento, Toshitaro aéreo se desfaz no ar da tarde.
Estamos com saudade de Toshi. Em que terá reencarnado? No sapo que ora freme no jardim do arrabalde festejando a chuva de primavera? Ou no pardalzinho chinfrim que chilreia e dança sobre os fios elétricos da rua? Ou mínimo se aguça entre as miúdas formigas que do fogão à mesa da cozinha vez em vez anunciam mudanças?
Toshitaro tinha como a maior honra humana a coragem. Com sua vida marcial e espartana, era dela que extraía insuspeitadas levezas. Do que tinha medo Toshi que não tinha medo de nada? Todos nós, haikaístas e tankeiros, budistas de meia-tigela, colecionadores de koans, bailarinos ou mestres guerreiros estamos com saudade de Toshi.
Pelos meus cinquenta e um anos, se a tanto me chegue a idade daqui a alguns meses, André Toshitaro não surgirá ao portão do tugúrio, o ronco da Kawasaqui acordando os vizinhos, e nem me entregará, solene, reverencial no sorriso contínuo – da cara franzida ao risco do olho – o mimo aniversário, um koan que seja de dúbia melancolia.
Da natureza deste, por exemplo, com que nós, os amigos de Toshi, escolhemos para deitar à pedra fosca de sua última morada, koan guardado em caixa de acrílico da cor do rubi de que era incansável perseguidor, este André Toshitaro que, muito antes de tudo, nos ensinou a ver – será que aprendemos? – que a morte não há. Há a morte de não-haver?
‘‘ – Mestre, o que é a coragem?
– A coragem é a morte da feia covardia...
– Sim, isto é o óbvio...
– Nem tanto, meu filho - por vezes a covardia não morre...
– E aí como é que fica a coragem?
– Precisando de mais e mais coragem...
– Uma só coragem não basta?
– Não, coragem é uma sucessão de pontinhos...’’

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