Giácomo Joyce
De todas as obras ditas ‘‘menores’’ de James Joyce, a ‘‘menor’’ entre as ‘‘menores’’ parece ser ‘‘Giácomo Joyce’’, poema em prosa, publicado postumamente, tangido por uma música delicada e solferina; obsessivo em seu erotismo pedinte, quase mendigo. Tendo como pano de fundo a italiana Trieste dos anos loucos, trata do lascivo amor de um velho professor por sua (tenra) aluna. Sonho e desejo; volúpia e jogo.
Como tudo no mestre irlandês, ‘‘Giácomo Joyce’’ não se propõe a narrar uma estória; nada conta, para contar o que interessa e não deixar coisa alguma de fora, valendo-se para isso de uma linguagem disposta ao que for com vistas a instaurar no ‘‘espaço textual’’ o jogo máximo dos sentidos, a palavra pluri-sensualizada ao extremo, um extremo que conduz à síncope daquilo que, na paixão amorosa, é quase sempre vero suicídio de estrelas...
‘‘Menor’’ mesmo que ‘‘Poems Pennyeach’’ (‘‘Pomos por um Pêni’’) ou a lunar ‘‘Chamber Music’’ (‘‘Música de Câmera’’) – poesia ‘‘lato sensu’’, vazados ambos em versos ‘‘puros’’ – ‘‘Giácomo Joyce’’, em sua pungente beleza, chora e suplica, pede e clama pela Beleza Demais que há de morar assim a esmo e espicaçante nos frejes frementes de impossível donzela.
Auto-irônico ao extremo, ciente da velhez que mina o corpo, o nem sempre contido ‘‘teacher’’ se sai, entre outras, com esta pérola – ‘‘Love me, love my umbrella’’ (‘‘Ame-me, ame ao menos o meu guarda-chuva’’), o que constitui, evidente, descarada insinuação erótica mas, dita assim, sugere não mais que alto grau de inocência...
Traduzido ao português por Paulo Leminski (editora Brasiliense), lembro agora, não passava um dia daquela primavera gelada de 1985, que nosso maior poeta não urrasse ao telefone, epifânico, ‘‘tomado’’ pela música secreta do inglês inaugural e sempre de estréia do mais que joyciano ‘‘Giácomo Joyce’’.
‘‘Giácomo’’, de James, Jayme, Jac, Jacob, Jácome – é ‘‘prosoema’’ dilacerantemente autobiográfico, radiografia de um tesão que é quase dor por Amalia Popper, gazelinha judia que as crônicas dão com uma voz cantada e chilreante nas lições de inglês da Trieste daquele tempo. James, Jayme, Giácomo, não fazia por menos – de colete amarelo deitava-se em duas cadeiras, fumando cachimbo e, mais que ensinando, encorajando sacanagens. Lição Um, os trocadalhos do carilho – ‘‘Mefistófeles = Mavis Toffeeless’’, ‘‘De Profundis = Deepbrow fundigs’’, and so all...
Também enviezada micro-suma de outros livros, sobretudo de ‘‘Retrato do Artista Quando Jovem’’ e de ‘‘Ulisses’’, ‘‘Giácomo Joyce’’ ecoa e reverbera, todo o tempo, a alegria do texto, a epifania do fazer literário, apesar, ou em razão mesmo, de sua indisfarçável melancolia – este frustro intento, face à Beleza Demais, igual que um coice.
‘‘Love me, love my umbrella.’’
Leia mais sobre James Joyce na página 8

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