Wilson Bueno
Vida, Violenta Vida
Arquivo FolhaPor mais líricos e alheados, inevitável que metamos a mão na lama e, o que é mais grave, invadindo seara alheia, terreno por exemplo em que mexe-se, com brilho e competência, o muito nosso Percival de Souza, no primeiro caderno deste jornal. Mas não dá, paciente leitor, para silenciar frente ao mar de sangue que nos espirra à cara diariamente. O franco-atirador do shopping paulistano é só uma metáfora pequeno-burguesa da vida, violenta vida, em que se converteu este final de milênio. Inútil atacar o cotidiano brasileiro, nossos atrapalhos e despautérios o ser humano é que se mostra mesmo incurável.
Se serve como refresco, bom lembrar já fomos muito mais violentos nada e nem ninguém superou, até agora, em requinte de sadismo, a tortura cristã, católica e medieval da famigerada Inquisição, quando fritar o condenado em azeite fervente era mais a norma do que o excesso; ou a exceção. E nem precisamos ir longe a crueldade com que ao longo da História a humanidade tratou os cavalos, por exemplo, é chocante. Dos olhos furados à morte a porrete, passando por sevícias inenarráveis, está tudo documentado num livrinho precioso e que muito antes da razão ecológica de nossos dias, circulou sobretudo na França e foi o manual de nossa mauvaise consciência Le Cheval, Avec Esprit.
Cavalos, gatos, pardais (o morticínio que a dita Revolução Cultural chinesa pepetrou contra as duas últimas espécies é recentíssimo e nos mata de vergonha, sobretudo para quem empunhou o Livrinho Vermelho como se fora um missal...), pois cavalos, gatos e pardais à parte, creia, leitor, só no último final de semana, 51 pessoas foram assassinadas em São Paulo. A maioria, jovens entre 14 e 25 anos.
As estatísticas são alarmantes morremos, no Brasil, de bala ou vício, mais do que se morre nas guerras étnicas que pululam mundo a fora; o trânsito nosso de cada dia se converteu num campo de batalha e o crack, droga da boca-do-lixo, dos miseráveis e deserdados, está matando nossas crianças mais do que a pólio e a varíola juntas em outros tempos.
Com requinte de psicótico americano, o pobre-diabo Mateus da Costa Meira fez de uma sala de cinema o palco sanguinolento de um chocante morticínio, mas naquele mesmo dia e hora, sem grande alarde além do que conferem as manchetes já rotineiras dos jornais populares, outras chacinas eram perpetradas por bandos armados na periferia da mesma Paulicéia a cada dia mais desvairada. Com número ainda maior de vítimas... Meninos e meninas pobres, de ordinário pretos, de ordinário famintos, de ordinário entupidos de álcool e demais drogas estes não merecem os destaques do horário nobre televisivo, mas morrem do mesmo modo a sua morte humilde e desnecessária, afogados em sangue e barbárie.
Em sua célebre reflexão sobre a Segunda Guerra Mundial, o sábio romeno E.M. Cioran, amargo mesmo ao tratar de flores, se perguntava, atônito, até quando continuaríamos humanos, identificando aí o que Freud, com não menor desencanto, já havia denunciado a pulsão de morte em nós é puro gozo, gozo etéreo do fim de tudo; e o que realmente aspiramos, em última análise, os racionais, é e seguirá sendo sempre, para lembrar a síntese impagável do mestre vienense, a cessação da febre de ser. Um que outro Eros, pelo caminho, claro, que ninguém é de ferro, mas esta já é outra história que a nossa máquina desejante precisa frequentemente rever...
Inútil buscar, num mar de tinta e papel, a decifração deste outro mar de lama e sangue, e de onde, raro prodígio, sem se sujar nele, Percival de Souza faz a crônica dominical de sua existência aturdida, desencontrária. Inútil mas nem por isso dispensável que nós, velhos e novos escribas, o denunciemos nem que seja para lembrar que dificilmente nos salvaremos de nós mesmos e que a violência é, como no poema de quase três mil anos, só a ponta da cauda da serpente...
Que Deus, o Demo e as Forças Auxiliares nos livrem, e guardem.





