Wilson Bueno
Dog, o Facínora
Arquivo FolhaA tarde em que Dog, o Facínora, apeou de seu cavalo em frente ao saloon de Rabbit, o Coelho Anão, todos os que se encontravam dentro ou fora da taverna, temeram dele, de Dog, o Facínora, o duro e imprevisível olhar. O corpo apoiado ao balcão, o fino bigode e a ausência de dois molares quando abria o riso astuto mais para hiena do que para cão desenhavam a silhueta que sempre lhe pertencera, a sua figura forasteiro, errante, matador contumaz daqueles oestes de outrora. Uma mão no coldre, outra no palito entre os dentes, Dog, o Facínora, observou em torno vagaroso, ferino, quase cruel.
No bar repentinamente vazio, apenas Rabbit, o Coelho Anão, fingia limpar o balcão, os braços alcançando com esforço a gasta madeira, as patinhas didáctilas um pouco trêmulas, ou varrendo o salão, perfeitamente pronto a atender de Dog, o Facínora, o que exigisse ali a sua fama e vingança, seu denodo e incalculável história. Não, Dog, o Facínora, não nascera o matador impenitente em que se tornara depois que lhe atropelaram o pai e levaram-lhe a mãe os homens da carrocinha. Agora não tinha para ninguém. Sabíamos todos, liquidava um mais afoito como se liquida uma mosca, aproximando do lábio, depois do estrago, o cano do revólver, para soprar dali, blasê e muito cândido, a fumaça. Com a unha riscava na coronha a marca de um novo cadáver.
Dá-se que a tarde não é só de silêncios e o saloon deserto com um Rabbit dentro esperando as ordens. Não tendo conseguido sair a tempo, debaixo de uma mesa o Jaboti encolhe-se todo, a cabeça guardada, imóvel, mineral, uma espécie de bacia virada para baixo. Próximo dali, o Macaco que, sem vencer a curiosidade de conhecer Dog, o Facínora, também acabara restando no bar não sabe o que faz, debaixo de outra mesa, de onde, sem perceber, o Coelho Anão acaba de retirar a toalha.
No passeio do ríspido examinar em torno, Dog, o Facínora, topa com os dois olhos assustados do Macaco debaixo da mesa, e antes que peça a Rabbit, o Coelho Anão, o uísque de milho curtido em guizos de cascavel, seu preferido, num átimo, fulgurância de segundos, descarrega contra o teto o revólver. Não foi necessária nova cena para que, vacilante e muito magro, o Macaco, que era bem preto, deixasse o esconderijo.
Arrastando-se até onde eram as enlameadas botas de Dog, o Facínora, dispensável informar que o Macaco pediu perdão por existir e alegando atrapalhos no trabalho justificou não ter deixado o bar, como os demais, porque precisava desvirar, veja ali, Sr. Dog, aquela bacia. O Jaboti, que não estava morto e nem era surdo, teve medo de seu destino.
Já entornando o copo de uísque e deixando brincar na boca um guizo novo de cascavel, Dog, o Facínora, intimou, o guizo na boca tornando a fala um pouco atrapalhada Então fai lá e e chenta de novo, a baxia E o Macaco, se fazendo de desentendido, correu até a mesa mais próxima da portinhola vai-e-vem da saída Xentar aqui, baixio, de novo? Chenta? É pra chentá? Chentei... O guizo mastigado, e devidamente engolido, Dog, o Facínora, então foi claro: Mandei tentar de novo, a bacia... E antes que o Macaco explicasse que ela não desvirava, o Jaboti inventou de pôr a cabeça para fora, temeroso de que seu casco virasse um chuveiro. E assim ficou, os olhos fechados, a cabecinha rósea e tesa fora do casco feito uma espada.
De novo, súbito, Dog, o Facínora, sacou do revólver mas, já senhor da fuga, o Macaco não se conteve, ao mesmo tempo que saía correndo, coisa que, aliás, faz até hoje nesta história O Dog que me desculpe... Juro que eu não vi que a bacia tinha um cabo rosa... E foi então o chuvaréu de bala, e bala, e bala, com o Macaco ileso saltando entre uma e outra feito dançasse a tarantela.
O Jaboti, não precisa dizer, virou sopa de tartaruga.
Ah, o Macaco!





