Pelos bailes da vida
Os sociólogos de plantão já têm mais um enigma a decifrar, além do incurável, e autodenominado, nhém-nhém-nhém tupiniquim – por que Curitiba, em poucos meses, se tornou a capital brasileira do country? Digo ‘‘country’’, assim de modo genérico, porque, mais do que gênero musical, o country que referimos pressupõe todo um estilo de vida – do chapelão de rodeio às botas de salto e presilha e – até –, pobre língua portuguesa, o deliberado avacalho com plurais e verbos, regências e concordância.
Mas o desleixo com a língua não tem a menor importância quando se trata das alegres noites curitibanas e, a cavalo delas (ôpa!), vigora a procura amorosa feito uma caça incessante e movediça com que jovens de todas as idades saracoteiam a catira e valsam langorosas rancheiras. Até a guarânia, inocente leitor, está de volta, gemente e soluçada, nos bailes da cidade.
Sou do tempo das matinês dançantes da (casta) Sociedade Thalia, regada a gasosa de gengibirra, ainda que isto não impedisse a inevitável ‘‘esticada’’ à casa de um mais afoito, ali onde entre gurias virgens e piás apalermados éramos nocauteados pelo mais desonroso dos porres – o porre de cuba-libre. Como o porre de cuba-libre não há, leitor, não há – é um porre de amador para amador e que, no dia seguinte, vos trava o esôfago e vos gela o coração já moralmente abatido.
Hoje não tem mais disso não, para lembrar um xaxadeiro ilustre, o saudoso Luiz Gonzaga, estas horas saracoteando no céu que lhe aconteceu, certo que sem o ruidoso ânimo com que saracoteia o povo do country nos clubes da cidade, mas senhor de ‘‘cheiros’’ e barrigadas, gemências e voluteios – dançarino fero e vero – aqui, no tempo em que viveu; e decerto, agora, no paraíso... Pois o que se bebe nos clubes countries é da caipirinha à vodka pura, e chope, muito chope, vacas velhas e touros novos, novilhas e potrancas, mulos, mulas, garnisés, xeréus...
Escandaliza-se o cândido leitor com tal sorte de nomes? Pois, se isto sucede, não viu nada – há na cidade, – estatística mais ou menos oficial –, cerca de 700 grupos countries, com camiseta própria e inscrições no pára-brisa dos carros, e, se duvidar, até flâmula oficial, com brasão e o símbolo dos estilizados peões. Os nomes? Tirem as crianças da sala – ‘‘Os come em pé mesmo’’, ‘‘A broma dos galo véio’’, ‘‘As Montada’’, ‘‘As Largadinha’’, ‘‘As Picada’’, ‘‘Os Cavalga’’, ‘‘Os Mais Duro’’, ‘‘Os Menos Mole’’, ‘‘As Forgadinha do Abranches’’...
Entre o franco pornô e o catito erotismo, dependendo, claro, de quem a pratica, a nova onda tem como cenário privilegiado o El Toro, templo country da cidade, ali onde era o não menos agitado Operário que fez história com seus pioneiros bailes gays, além da farra grossa, o ano inteiro, a cada sábado, todo sábado, movido a honesta cerveja e cachaça de Morretes. Quem viveu, viu – o amanhecer no Alto de São Francisco, com o inesquecível Tatu surrupiando do clube, onde era figura proeminente, um excelso Macieira... Agora o que se testemunha ao fim da esbórnia é ainda o recomeço dela, só que num outro cenário – carros e carrões, mulheres e homens a caráter, no amasso que continuam a ter direito os alegres protagonistas dos embalos noturnos do centro da cidade.
Mas o melhor da festa é assistir como se assanham, em gritos de guerra, os grupos caracterizados – ‘‘Cadê os Galo Véio?’’ – pergunta o animador de cima do palco onde se revezam as duplas sertanejas. E os ‘‘Galo Véio’’ respondem em coro, ensaiados, do salão – ‘‘Tamo aqui véio e duro...’’ – ‘‘Véio e duro? Pra quê?...’’ – ‘‘Pra montá nas galinha!!!’’
Vixe Maria!

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