Terra dos Homens
France PresseO bebê símbolo da ONUOs jornais alardeiam e, a vida, prosaica, recolhe a constatação espantosa - chegamos aos 6 bilhões de almas cá em nosso mundo insensato. Só o Brasil caminha célere para os 200 milhões de habitantes com hordas crescentes de miseráveis e famintos espremendo-se nos grandes centros urbanos. Sou do tempo em que, - aprendíamos no colégio -, Curitiba, a capital das Araucárias, contava com não mais do que 350 mil habitantes; Ponta Grossa, 200; e a vizinha Joinville, 150. E nem faz tanto tempo assim...
O hábito de contar quantos somos veio felizmente bem depois de indagarmos quem somos, embora esta questão permaneça incurável e jamais saciada - acumulam-se os séculos e com eles os filósofos dispostos a solucionar o intricado enigma de nossa essência. Houve até uma sociedade secreta, a dos ‘‘janseninos’’, que respondeu, peremptória, à especulação sobre a natureza humana, decidindo, sem mais, que não éramos e nem nunca fomos... Professo a opinião modesta de que somos, sim, não há erro, ainda que, admito, excessivos para o nosso estreito mundo, miúda bolota de lama andando o espaço inenarrável, para ficar com a (boa) poesia de Sá Carneiro, um poeta que embora suicida, acreditou que fôssemos viáveis. Pobre Sá Carneiro - não pôde esperar pela brutalidade nazi da segunda grande guerra e deixou esta vida em meio à igualmente nefasta primeira conflagração mundial na qual, de novo, os homens comeram, uns dos outros, as vísceras. Difícil medir onde melhor esmeramos em crueldade neste século - se na primeira ou na segunda guerra, ambas exemplos do mais exasperante horror.
Ao nascer em Sarajevo, cidade que, um dia, relatam as crônicas, foi a jóia dos Bálcãs, e hoje é uma das zonas mais arrasadas do planeta, o sexquibilionésimo humanóide chorou, como eu e você, gentil leitor, ao ser libertado do ventre materno, mas há quem indique nas lágrimas dele mais que sinal de vida - possivelmente choraram por nós e por nosso irreprimível destino, as lágrimas do menino escolhido pela ONU para simbolizar a demográfica façanha. Muçulmano e pobre, ao vir ao mundo num cenário ainda de barbárie e pânico, o bebê sarajevo não é bem o que se possa chamar de um exemplo gozoso e franco que nos simbolize a fraca espécie. Certo passamos dos seis bilhões de viventes mas o que há de feliz neste evento? Se mais não fosse, obrigatório reconhecer - há dúvidas se os humanos temos conserto...
Em 1804 éramos 1 bilhão de seres habitando a terra dos homens e em pouco mais de 150 anos, sextuplicamos. Para Cioran, um sábio demasiado amargo para ser lembrado nessas horas, os homens são uma aberração da natureza, e pior que isso, segundo ele, só a ‘‘reprodução’’ disso, pela via de novos nascimentos, o que pode parecer afirmação excessiva, assim fora do contexto, mas fica claro como água se lembrarmos que o filosófo romeno referia, ao calor do instante, a invenção da bomba atômica e sua sinistra ‘‘estréia’’ em Hiroshima. O artigo é célebre, e foi publicado na França, em 1945, sob um título amplamente intrigante - ‘‘Até quando seremos humanos?’’
Com o anúncio do ser humano nº 6 bilhões, junto veio a notícia, arrepiante em muitos sentidos, de que a humanidade cresce à média de 78 milhões de pessoas a cada ano, o que dá, em dez anos, o acréscimo de 780 milhões de novos seres e em cinquenta (o que são cinquenta anos?...) de quase 4 bilhões - 80% dos quais serão, assustem-se!, asiáticos e africanos. Face à indigência crônica dos países que fazem parte destes continentes, não será leviano prever que o futuro do planeta aponta bem mais para a catástrofe do que para a aleluia.
Narra a lenda antiga que Sócrates (470-399 a.C.), antes de morrer, teria manifestado um desejo impossível - o de se despedir, um por um, de todos os seus contemporâneos, ao que um de seus amantes, provavelmente Íon de Eubéia, de todos o mais cínico, o teria repreendido com graciosa candura - ‘‘Este não é um desejo impossível, mestre. Nós, os atenienses, somos muito poucos...’’
Bilhões de humanos depois, aqui estamos, ainda uma vez pasmos de nós mesmos.

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