Memória das ruas de Curitiba
Nas rememórias que Luiz Geraldo Mazza vem tecendo, com invariável brilho, aos domingos, no primeiro caderno deste jornal, lembrava há pouco tempo os tipos folclóricos das ruas de Curitiba, tão singulares, lições de sestro e malícia, e da soberba arte de dar nó em pingo d’água, apesar de ‘‘loucos’’, ou por isto mesmo. Tenho com alguns deles a minha história e por essa razão guardei, com certa doçura, o que foram para este vosso croniqueiro, sobretudo o travesti-mendigo ‘‘Gilda’’, que comigo andou, um tempo, as madrugadas bêbadas da Cruz Machado. O que, não desconheço, também acabou virando folclore...
Aliás, para quem não percebeu ainda, nosso Mazza escreve, ao vivo e em cores, ofício dominical, o que torço se converta em livro – as memórias de sua geração, tocadas, como toda memória que se preze, desse poroso encanto que é o encanto do ido e do vivido. Exercício árduo, este, o de guardar o fugidio instante para sempre banido de nossas mãos, cousa da qual Mazza se desincumbe com a vocação da palavra e do ‘‘afeto’’ que são dele a maior marca. E triunfa aí o gosto do testemunho, a crônica de nossos dias.
Esqueceu, o Mazza, do ‘‘Gigi’’. Onde andará ‘‘Gigi’’ que a família, aflita, procurava, o desesperado bilhete materno, ainda uma vez, lido pelo locutor polaco da P-ÉRE-B2 , em meado dos cinquenta, que a mim me lembra feito um sonho? E ‘‘Gigi’’, notável ilusão, parece só os meus oito anos detinham o segredo de onde se escondia – torto e baboso, a mão curva, misturado à piazada da geral do Circo Queirollo. Furioso às vezes, ninguém queira ‘‘Gigi’’ exigindo a esmola, ameaçador. De nós, os piás menores, esfolava-nos o que não tínhamos...
Esqueceu, o velho Mazza, ou não quis lembrar, posto que ‘‘Gigi’’ é figura periférica, mote para Dalton Trevisan num conto famoso, mas ‘‘louquinho’’ de bairro, ao contrário do que, naquela ocasião, ele punha na ponta da pena – os loucos do centro da cidade. ‘‘Esmaga’’, por exemplo, dizendo, por nós, o que nunca diríamos e desafiando o coro dos contentes com aquele seu esgar, mais que de nojo, maligno, fulminante. O notável engravatado flagrava-se, nu feito o rei da fábula, flagrado na hipocrisia mais hipócrita, e humilhado em ser, nem que por escassos minutos, o protagonista do ridículo da vida.
Ou a doce e gemente Maria do Cavaquinho, eternamente grávida, eternamente sem dentes, de gorro vermelho e calça comprida de lã sob o vestido encurtado pelo barrigame, tocando da Praça Osório ao Café Alvorada a subvida pedestre, o riso um fio de malícia a lhe riscar a cara meio malaca, meio índia. Era triste, a Maria; não, melhor – era melancólica; e tinha neles, em seus olhinhos apertados, uma delicadeza de cão. A Maria era, e continuará sendo, anterior a nós, ali desde sempre, nas ruas que nem mais são minhas, ou vossas, curitibano leitor...
O folclore que se engole... Quantas vezes, nua da cintura para cima, o tórax atlético e peludo, a traveca ‘‘Gilda’’ rodou a baiana, e beijou de língua, em plena Boca Maldita, o ‘‘importante’’ enfatiotado feito quem desse nele um tapa na cara? Não havia ternura nas mimeses femininas de ‘‘Gilda’’, senão, de sua mão, o brilho da gilete no escuro, e o acerbo rancor. Mais que louco, ‘‘Gilda’’ em especial, tinha uma raiva cheia de unhas dos ‘‘branquinho’’. Curioso que se considerasse, ao menos aí, de outra cor, ela que era de um ruivo desbotado. Bom trecho corri as noites cachorras com ‘‘Gilda’’ a tiracolo espantando a freguesia. Algumas delas, dessas noites, são bem conhecidas, e pertencem, mesmo que as recuse, ao folclore de minha pobríssima biografia...
Na tênue linha que separa a loucura mais insana da lucidez mais descabelada, aí é que vigem esses tipos das ruas, a exigirem de nós um entendimento, a ‘‘psicanálise’’ de suas vidas a esmo. A um tempo diversos de nós e tão extensamente nós mesmos no que, em nós, secreto, destoa, – e neles é explicitação bufa – sofrem, sofrem muitíssimo; e morrem de ordinário numa solidão que dá nojo.
Bonito enxergar de sentinela as mãos escribas que as recolhem, às memórias de Esmaga e Gilda, Maria do Cavaquinho e Gigi, Estacho e Neném, Ana Gorda e Zé Crispim, nem que elas sejam, no domingo distraído, esgarça notícia, farrapos do tempo num pedaço de jornal.

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