Wilson Bueno
Diário de Bordo
ReproduçãoDo outono gelado de Nova York impossível esquecer, na mesinha-para-três do Café Kafka, no SoHo, entre sucessivos capuchinos, o poeta dominicano no exílio, Leandro Morales, contando-nos, a mim e à bela Whitney Bennett, doutora por Columbia University, uma história em todos os sentidos preciosa. A história de uma pedra, senhores, exatamente isto, de uma espécie de ametista que cantava.
A história de Leandro Morales, narrada com requintes literários, num castiço espanhol barroquizado, remete ao ano de 1492, quando Cristóvão Colombo descobriu a hoje República Dominicana, batizando a ilha de Hispaniola, forma latinizada de Espanhola, uma maneira de homenagear os patrocinadores de sua aventura os reis de Espanha. Tendo, logo de início, expulsado, a tiros, os índios da região, o indomável genovês jamais poderia supor que, naquele desierto de agua y azul, resistisse, oculto entre as dunas ou em impossíveis esconderijos na copa das mais altas palmeiras, Anaiorá, irmão mais novo do célebre cacique Guatinguaná que, na República Dominicana, é herói nacional.
Entre capuchinos polvilhados com a áspera canela de Puerto Rico e longas cigarrilhas compradas no bairro chinês, a princípio foi difícil percebermos, este escriba e a bela Wicca, como poderia uma história de índios presa lá às origens da República Dominicana, dar numa pedra, uma ametista que cantava. Ainda que, apesar do sol, os ventos nos castigassem o rosto (só ele a descoberto) no balcão ao ar livre do Café Kafka, o poeta Morales nos pedia calma e que suportássemos a expectativa já saberíamos como as duas coisas se misturaram numa história que só os dominicanos poderiam um dia sonhar.
Anaiorá, ao saber da morte do irmão, o cacique Guatinguaná, passado em armas pelo próprio Colombo, saiu de seu esconderijo e para evitar que também o matassem fez questão de exibir, levantada, acima da cabeça, uma pedra de raro fulgor. Não precisa dizer o modo como aqueles primeiros argonautas se atiraram na direção do índio, tomando-lhe a pedra e já engatilhando as armas para mandá-lo desta para melhor. Salvou-o a extrema malícia com gestos indicou o areal e fez ver ao pequeno grupo que se acercara dele que ali, debaixo de toda aquela areia, ametistas eram o que não faltava. Poupassem-lhe a vida e lhes daria o mapa do incalculável tesouro.
Mesquinho e bem maligno, o pequeno grupo acertou entre si que ninguém mais da expedição deveria ficar sabendo o que acabavam de obter do selvagem e que, fosse mentira de Anaiorá, este seria executado baixo requintes de crueldade. E ficou combinado que, logo na manhã seguinte, ele indicaria ao grupo o caminho das ametistas. Encheriam os alforjes com as pedras, garantindo um mais que milionário retorno à Espanha e poderiam, quem sabe, libertar-se em definitivo do jugo del siderado Colón. Anaiorá, claro, não ignorava o seu destino uma vez revelado o segredo, seria, sem erro, executado. E, por isso, tentava adiar ao máximo a entrega do mapa da mina. Sabem como? Alegando que só descobriria, com exatidão, debaixo de quais dunas se encontrava o tesouro, assim que as ametistas cantassem.
O grupo invasor já encostava a garrucha na fronte de Anaiorá quando, sibilina e muito intensa, uma canção parece brotou entre o farfalhar das palmeiras, o revolto areal e os alísios que encrespam as praias de Hispaniola. Mas isto não é o canto da ametista perceberam logo os brancos. E como Anaiorá não podia se fazer entender na língua dos caraíbas, indicou as águas e lhes informou com sinais que era dali que elas cantavam, as ametistas marinhas. Empurrando-o na direção do mar, os brancos forçaram Vaya, indio! Pegue-nos las piedras, una que sea.
Anaiorá não se fez de rogado e lançando-se ao mar rápido desapareceu entre as ondas. Não contavam os espanhóis que o índio fosse exímio mergulhador, realizando ali mesmo, em suas barbas, uma fuga espetacular que os deixou mais que tontos. Do outro lado ainda não era o Haiti, mas ressurgindo numa de suas praias, Anaiorá organizou exércitos nativos que lutaram contra os invasores até o último sangue.
Nas siestas calcinadas de San Domingo costumava acrescentar o poeta Morales quando da praia se avista ao longe sobre o azul a esgarça espuma das ondas, ninguém duvide, é Anoiará regendo debaixo dágua o canto das ametistas.





