Wilson Bueno
Novas estrelas do céu
Arquivo FolhaNos primórdios, quando a metafísica era apenas um alento na vasta investigação que o homem haveria de empreender nesta direção, o poeta e rei da Trácia, Lisímaco (360-281 a.C.) formulava aos incrédulos uma lição encantada: quando a dúvida e a angústia da dúvida se impusessem ao coração humano, bastaria que olhássemos, os homens antigos, para o alto, para o incalculável firmamento sobre nossas cabeças. Quem de nós, ainda que desconhecendo Lisímaco, rei da Trácia, e a metafísica primeira, já não olhou, aterrado, para o céu?
Tenho também uma velha amiga, bruxa e escritora, e que não convém aqui desvelar-lhe a intimidade, para quem basta o céu contra a vaidade e o egoísmo segundo ela, não há ego que se sustente baixo o Imenso, a não ser o ego de Deus. Uma forma poética que minha velha amiga encontrou para dizer que, vistos de frente, todos somos menos que a poeira dançando a dança do vasto universo. Esta minha amiga, além de bruxa e escritora, é uma aprendiz obstinada da humildade, e estudiosa da astronomia.
Agora fico sabendo pelos jornais que a União Astronômica Internacional acaba de revelar a descoberta de nada menos que a décima oitava lua do planeta Urano. A nova lua não chega a ter 40 quilômetros de diâmetro o que a torna mais próxima do planetinha de O Pequeno Príncipe, por exemplo, do que, digamos, da velha Selene que o grego antigo cantou com suave majestade.
Possuindo dias que duram pouco mais de 15 horas e, até a semana passada, conhecidas 17 luas para lhe iluminar as noites imemoriais, às quais se junta agora o satélite recém-descoberto, num total de 18 luas para noites tão absurdamente curtas o que, mais do que mistério, constitui gozosa extravagância , Urano é o sétimo planeta do sistema solar e o terceiro em dimensão, só perdendo para Júpiter e Saturno.
E o mais interessante, até agora, na descoberta efetuada pela Universidade do Arizona (EUA), é que a nova lua de Urano ainda não tem um nome oficial, além daquelas anódinas siglas com que a Ciência de hoje arquiva nos computadores luas e estrelas, planetas e asteróides. Embora identificada pelo astrofísico de origem eslava E. Karkoschka, o corpo celeste parece não foi batizado com seu nome, como é praxe, possivelmente pelo intricado patronímico, neste tempo de sumárias reduções. Já imaginaram uma lua que se chamasse Karkoschka? Tenho para mim que justamente aí é que residiria o seu charme. Lua polaca, sem dúvida, mas lua rara, e nomeada de um modo que não se usa mais.
Mesmo à revelia dos especialistas, sempre rigorosos, chamemos à nossa lua de Karkoschka e de novo a admiremos, a imaginação vadia por essas jornadas astrônomas orbitando a apenas 51 quilômetros da superfície de Urano, que lua é esta, a Karkoschka, que a gente quase pega com as mãos? Isto, claro, habitássemos Urano, baixo suas noites profusas e a graça lunar de dezoito satélites girando em torno do planeta feito fossem intermitentes brinquedos de Deus. Mas isto, já disse, é só um exercício de vadia imaginação... O que há é a nossa mais que terráquea solidão.
Pascal, o maior dos curiosos, perguntador obsessivo de Deus, foi quem com melhor talento pôs às escâncaras, e em carne viva, nossa indigência face ao mistério de não sabermos nunca de onde viemos nem para onde vamos, o que parece lugar-comum filosófico não fosse a mais lúcida das indagações humanas esta em que perguntamos, sem pudor, para que serve a nossa pobre vida angústia inexorável que torna ainda mais flagrante o liliputiano tamanho da espécie: Le silence éternel de ceux espaces infinis meffray. (O silêncio eterno desses espaços infinitos me estarrece).
Ora direis, ouvir estrelas...





