O insensato de cada um
‘‘Eram uns óculos raros/ óculos de muita serventia/ óculos que não possuíam aros/ e que muito menos lentes tinham.’’ Esta quadrinha, do rico folclore mineiro, dá bem a medida do que o chamado ‘‘non sense’’ é capaz, além de nos revelar que nem só de Kafka ou Beckett, Ionesco ou Lewis Carroll vive este desejo de absurdo em nós. Sou, desde há muito, particularmente apaixonado por estas endemoniadas elaborações do gênio humano – seja baixo a assinatura sofisticada de grandes mestres literários ou, a exemplo dos versos acima, sem assinatura alguma, jóias anônimas do fértil imaginário popular. Tanto umas quanto outras o que evidenciam é nossa capacidade, muita vez ilimitada, de nivelar o real ao mágico da hora, conferindo asas a elefantes (sempre a partir de suas grandes orelhas de abano) ou fazendo peixes cavalgarem os homens, quando não são homens que, transformados em peixes, levam às costas as deidades do mar.
Muito antes de nós, já Ovídio, o primeiro dos zoólatras profissionais, decidiu calcular a idade do Diabo e, para tanto, lançou mão de intrigante lógica – se, na tradição judaica, o Diabo foi expulso do Paraíso, com o nome de Lúcifer, e se tinha a forma de um anjo com horríveis asas de morcego, e se desde sempre convivera com Deus, o Diabo, ao contrário do que todos supunham, não tinha idade, e o que é melhor (ou pior...) – se não tinha idade, nunca havia existido.
Esquecia o poeta latino de que o Diabo era – ou é – eterno, provando, uma vez mais, que contra-senso e ‘‘non sense’’ nem sempre andam juntos – pois não há maior contra-senso do que a eternidade do Diabo pois isto desmentiria a existência do próprio Deus, detentor do Bem, ao conferir, através do Diabo, eternidade ao Mal, o que, convenhamos, é um contra-senso mais bárbaro que divino.
‘‘Fomos à rua do Laço/ comprar bacalhau/ a rua mudou do Paço/ foi morar em Portugal.’’ Esta outra quadrinha, segundo o folclorista Helianto Barros da Cunha, provavelmente inventada nas ruas do Rio, no século XVIII, como forma de ‘‘paga’’ nos jogos-do-bobo entre os meninos escravos e seus infantes senhores, é exemplar da apropriação pelos negros da cultura branca e dominadora, ao citar Portugal, alusão inócua, e tão absurda para eles quanto a Escandinávia ou a Turquia.
A Lua e a estrela Vésper, estas eram com certeza muito mais presentes na vida dos ‘‘angolas’’ do que o país dos lusos, nossos antecessores. Não deixa de destacar o pesquisador o caráter de absoluto ‘‘non sense’’ meninos escravos lembrarem Portugal – ‘‘uma coisa que não existe’’. O que pode soar como novo contra-senso, partindo do pressuposto de que só existe o que conseguimos tocar fisicamente, mas é, sem segundas intenções, de uma exatidão irritante. Quem desmentir há de?
Está em nossa alma profunda o gosto pelo absurdo, que jamais pode ser confundido, vezo de apressados, com ‘‘delírio’’ ou ‘‘coisa sem sentido’’, apesar do nome (‘‘non sense’’) – não, para que se instaure e se inaugure o ‘‘non sense’’ precisa obrigatoriamente encerrar em si uma ‘‘ordem’’ última e insubstituível, a ordem de suas leis internas, que é, creiam, rigorosa – tem que haver um ‘‘sentido’’ no ‘‘não-sentido’’, o que pode parecer, de novo, um contra-senso mas é só a evidência da coisa mais sensata do mundo. Desnecessário explicar como.
Franz Kafka, possivelmente o maior escritor que produziu nosso século insensato, foi um cultor de excentricidades, a confiar neste biógrafo equívoco que é Max Brod, mas nenhuma se iguala ao prazer que sentia, exímio nadador, em contar, os olhos abertos, o número de bolhas provocadas pelo ar que desprendia dos pulmões debaixo d’água. Para fazer valer o fôlego...Que Kafka tenha morrido, jovem e inédito, de tuberculose, é outro contra-senso também inexplicável pela via do ‘‘non sense’’, sob as calculadas leis de sua artesania.
Contra-senso, neste e em outros casos, costuma ser mesmo grosseiro. Ao modo de fecho antigo a estas reflexões baldias, ninguém melhor que Esopo, que pioneiramente fez falar os animais, cousa até então inaudita, capaz de assumir, ousado, ‘‘debaixo’’ de um adágio, o que ainda não era o sem-sentido de hoje mas já incomodava – ‘‘Fui devorado pelos leões de Tessalina/ E por isso/ assino estas linhas.’’ Até hoje, difícil acreditar – do adágio não havia linha nenhuma.

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