Wilson Bueno
De volta ao jardim zoológico
As YararásBichos só encontrados na banda oriental do Paraguay, as yararás são exclusivamente femininas. A rigor, constituem exemplares perfeitos de réptil hermafrodita, mas como para os guaranis inexista esta mediação e tão só o limitado império dos dois sexos as yararás serão sempre as yararás fêmeas, femínias, serpentes emplumadas, os olhos de moça e o recurvo par de presas que apunhala os apaixonados.
Zoólatras chilenos que pesquisaram o mito na aldeia de Soledad, encontraram histórias de homens que engravidaram a yarará, acrescentando ter dela nascido, algum tempo depois, uma espécie feroz de cobra curta e grossa, a qual, por cega, atira-se, odiosa, em qualquer direção. Parecida a um cão em fúria.
As yararás costumam enrolar-se ao galho mais baixo das árvores, em paciente espreita o índio virgem tremerá, ante os olhos delas, verdes, fatais como os olhos de uma mulher, e será ele que a yarará há de esperar, noite e dia, a sua presa.
O sexo das yararás é uma fenda oblíqua ao meio de seu coleante corpo de jibóia. Ali, os homens jovens são felizes.
Para o poeta Helio Veras, e também para o paraguaiólogo Fábio Campana, o que mais chama atenção na yarará é que, sendo fálica, facilmente se inscreva entre os grandes mitos feminis do extremo oriente paraguaio, o que recoloca as serpentes de qualquer tamanho no âmbito de um símbolo do qual nunca deveriam ter saído: a de eixos femininos, sua mais exata ciência.
As yararás enternecem o coração dos índios adolescentes que as chamam, nas siestas calcinadas, em plena mudança de voz, as chamam, os duros mamilos em riste e o abrasado calor à altura da pélvis, yararámichimíraytotekemi, de um modo ritmado e contínuo, yararámichimíraytotekemi, até a síncope, yararámichimíraytotekemi, a síncope com que pela quinta vez decaem do paraíso.
As yararás não respondem, limitando-se, ao fim do dia, a emitir uma que espécie de modulado assovio. Não, a ninguém chamam, as lânguidas yararás; pelo contrário, choram, à esta hora do entardecer choram, um tom grave de flauta, ou o balir de um cervo em agonia.
Os Recém-nados
São pequenos e esganiçados, gritam porque não ousam conceber que o mundo se constitua, para além deles, um espetáculo, ainda que de brilho suspeito e aterrador. Vigiam-se, mamam-se, babam-se e não dão trégua, um minuto sequer, nos usos de sofrer a vida como um acontecimento espantoso e ao qual chegaram frágeis, cheios de fúria; e despreparados.
Pegos de surpresa pelas noites imensas e as manhãs delicadas, pelas tardes longas e os entardeceres de abismo, sujam-se e mijam-se, desamparados e solitários, apesar de vigilantemente acompanhados pelo amor que lhes move o coração das extenuadas mães.
Inadaptados, relembradores, inquietos e quase sempre aflitos, não esquecem o que foi deles no útero frutuoso; não, pequenos monstros tocados de memória, não esquecem, não esquecerão jamais.
Por isso durmam e se estertorem, nacos de carne postos a viver, mesmo à sua extrema revelia. Não pediram para medrar em terreno inóspito e por isso guardem, punhal enterrado no coração, estas saudades de si que são, deles, a mais veemente nostalgia.
A felicidade do mundo é que não conhecem o suicídio e, se isto algum dia aconteceu, não tiveram os meios de matar-se.
Os Líftens
Como besouros amestrados, revoam nas janelas das cidades do interior da Escócia e são lá conhecidos como leeftins, portuguesados pelo paroxítono líften.
Parecidos com nossa aleluia, são contudo insetos singulares feito vagalumes com asas de vespa, retinem à cola um estralo, a cada vez em que se tornam inteira e intensamente vermelhos, eles que são assim de uma cor molamba, entre o pardo e o quase cinza.
Chocam-se, de propósito, contra os vidros, recusando janelas e portas abertas, trocadas pelas vidraças onde se esboroam e se embatem e se desasam em súbitas lagartas-de-ouro que mínimas e muitas , acendem no escuro, rubras, sanguinolentas.
Na velha Bretanha eram guardados em estojos depois de mortos.
Constituía crença antiga que os líftens, ao completarem um século, o que acontecia de cem em cem anos, transformavam-se em insetos de um quase impossível esmeralda.





