Wilson Bueno
Minhas memórias de Drummond
ReproduçãoEm meio à movimentação de mais um Perhappiness, o evento anual que enche de poesia o agosto curitibano, para marcar os aniversários do poeta Paulo Leminski, não poderia ficar sem registro - terça-feira, 17, deu-se, cravado no almofariz do tempo, doze anos sem Carlos Drummond de Andrade.
Olha lá longe - tenho vinte e poucos anos e uma inomeável perplexidade. Drummond já é de longe o mais importante poeta brasileiro, glória nacional, gênio casmurro a habitar a Rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana, escondendo-se sempre, em sua simpleza mineira, de literatos e novos literatos, da imprensa e dos vizinhos. Moro a duas quadras de seu prédio e volto e meia topo com ele, magrinho e glabro, o andar chapliniano - um ponto de exclamação deambulando a paisagem. Ainda que o encontre sempre, respeito-lhe a privacidade com um fervor cioso e obsessivo. E chego a mudar de calçada, desconfiado de que, não o fazendo, ao passarmos um pelo outro, o meu olhar, ou qualquer coisa em mim, possa denunciar a admiração exagerada que nutro por ele.
Dá-se que o poeta completa setenta anos, com festas e sarabandas, o auê da mídia que sem trégua não desiste e o cerca e o mima e o reverencia e dedica a ele uma atenção desusada. Carlos Drummond de Andrade é amado de um amor furioso, canino, por gente de toda espécie.
Já se disse que um país dificilmente vive sem a paixão por um grande poeta. Não vejo hoje no panorama literário tupiniquim ninguém a quem dediquemos, com a mesma intensidade, esse tipo de exercício de admiração. Dos vivos, quem? Adélia Prado? Desconfio que a admiração não se imponha com a mesma energia, primeiro por ser mulher e segundo porque não está suficientemente velha, condição aparentemente indispensável na construção do mito do poeta que detém, encerrada no coração, a alma de um povo. João Cabral nem conta, um tradutor de álgebras para especialistas e simpatizantes.
Pois nos setenta anos de Carlos Drummond de Andrade, cronista molambo do jornal Tribuna da Imprensa, decido delatar, de público, a nossa vizinhança, e, junto, o gosto que trago desde a província, - e que parece nasceu comigo -, por sua poesia. E faço um destes textos raros - que saem, de um jacto, preciosos e insubstituíveis. E o que é ainda melhor - sem que os censores prévios enxerguem nele nenhum sinal ou senha com vistas a derrubar a ditadura militar brasileira... Ganho o dia e a fervilhante desesperança de mais uma noite, de uísque e optalidon, pelos bares da vida.
Manhã de outubro quem há de esquecê-la, o pálido da lua incerta e o mar de Ipanema? Trecho que ando a pé, apostando que o sol nasça, ao menos ele, assim frutuoso nos desertos dias. Fora, o horror Médici e a noite pessoal interminada. Ando, ando sempre do Leblon a Copacabana - às vezes, cruel disparate, até duas ou três vezes o mesmo trajeto, para que, ao final, exausto, morto de cansaço, caia desmaiado no quitinete do Posto Seis.
Próximo à Conselheiro Lafayete há a banca do galego Ramirez - ainda hoje lá desafiando a maresia - onde costumo encomendar os jornais que só apanharei ao final da tarde. Abandonada, contudo, sem ninguém para atender aos fregueses, a banca pendurada de revistas, flâmulas, cartazes, balangandãs vários, parece se oferecer, gratuita, a quem passe, e a queira, nua e debochada, ao sol bailarino das sete da manhã de uma primavera carioca. Onde que diabos se enfiou o galego?
Antes que me dê conta, como que surgido do interior da banca ou, quem sabe, merlim prodigioso, brotado daquele mundo de capas e cores, fotos e manchetes, irreal o corte fino e o seco perfil do poeta Carlos Drummond de Andrade, ele mesmo, senhores, atrás de um exemplar, acreditem, da Tribuna da Imprensa, só que do dia anterior, vigiando a manhã e, olímpico, magro embora, o patrimônio jornaleiro do velho Ramirez.
Foi um susto, meu atrapalho e engasgo - atrás dos óculos, faísca oblíqua ao sol, azuis, uns olhos azuis se imprimem - de vez e para sempre - à minha memória; paisagem líquida, longe o mar do Arpoador.





