Wilson Bueno
O último eclipse
France PresseAo final e ao cabo, como diria o nunca assaz louvado Machado de Assis, cronista exímio, do eclipse da última quarta-feira, anunciado também como a senha para o fim do mundo, salvamo-nos todos. O mundo não acabou, Nostradamus errou de novo, e os que apostaram em suas profecias, igualmente de novo sustentaram que o erro não foi dele mas erro de quem o interpreta; e confunde os séculos com os milênios.
Mais na direção da ciência, ainda que lírica e baldia, ali onde se enxerga nos eclipses a idade da Terra - e este foi o último eclipse do milênio -, do que na defesa dos que vêem no sempre intrigante fenômeno astronômico o lúgubre sinal da Besta, feliz é constatar, baixo o incalculável céu, que, mais uma vez, numa operação de exatidão divina, durante 2 minutos e 23 segundos, um jogo de sombra e luz regeu o Cosmos e o pôs, puro espelho, na palma de vossa mão.
Não teria sido só isto, tanto e tamanho, o suficiente para arrancar do poeta antigo a exclamação bárbara que ficou ecoando séculos a deriva, muito antes deste nosso pífio fim-de-mundo de agora - Afasta, oh Zeus, a dor de ver? Negava-se, assim, já àquele tempo, Plutarco, a reconhecer, no mistério onde andasse a mão do Deus, sequer, de nosso, o imiscuir ali do nosso (fraco) olhar. Que terrenos eram estes, sacralizados pelo vate grego, um tempo em que a idéia de sagrado era outra e outra a pequenez humana?
Hoje, rivalizando com Deus, o engenho humano fuça e alardeia, busca, procura, e torna a buscar, e encontra, a cada vez, mais que fenômenos, ovnis, estrelas, planetas, quasares e black holes, mais que a mínima matéria e o elétron indizível, o que se renova, a cada achado, é a necessidade de continuar buscando. Será sempre infinita esta viagem do nada ao nada - para lembrar um astrofísico de nossos dias, Carl Sagan, numa metáfora supreendente aspirando aproximar nossa precária existência às coisas do céu. Sagan, que já cumpriu o périplo que vai do nada ao nada, é hoje só uma estrela; mas, a exemplo delas, não cessa, mesmo não existindo, de iluminar a ciência das coisas. Está aí uma das utilidades do céu.
De Avon, na Grã-Bretanha, a Calcutá, na Índia, a sombra lunar viajou a 2 mil e 500 quilômetros horários sobre aldeias e metrópoles, campos e rios, mares e oceanos, e desde o chão, mas também do espaço, em satélites projetados exclusivamente para a ocasião, foi estudada, mapeada, fotografada, filmada, e não sem encanto, se fez eclipse superstar nos mídias de todo o planeta.
Breve coroa trevosa apagando por instantes a luminescência do sol, inteira cabendo nele feito uma moeda noturna, a sombra, esta, prescindiu de Deus?
Maior, contudo, segue outro Mistério - até hoje a ciência não conseguiu entender por que a coroa solar (esta que aparece, círculo chamejante, por trás da Lua, quando do eclipse total) possui cerca de inimagináveis dois milhões de graus centígrados, enquanto a superfície solar, pasmem!, é de apenas 5 mil e 500. Como explicar o aparente disparate? Por que uma não engole a outra?
Um dos grandes trunfos do eclipse de quarta-feira seria justamente a possibilidade de estudar melhor o indecifrável fenômeno, e as primeiras notícias dão que foi, de fato, exaustivamente estudado. Conclusões? Nenhuma, por enquanto. Quem sabe no próximo eclipse, marcado para ocorrer em 21 de junho de 2001, mas aí já não será mais um eclipse deste inominável século nem das calendas deste nosso mais que insensato milênio...
Renovo a alegria de nos termos salvado todos - ainda não foi desta vez. Por Nostradamus! - com ou sem coroa solar, melhor deixar o fim-do-mundo para depois do ano que vem.





