Wilson Bueno
Novos Koans
Nunca é demais repetir: koans são pequenas estórias inventadas pelo generoso imaginário oriental com vistas a perseguir o insight, a sacada mais luminosa, esta que pode vos colocar no peito o sentimento vivo de um Deus. É que para os budistas, o Poder Superior não está além nem aquém: vige dentro da gente assim como uma pedra adormecida. Necessário acordá-la e, para tanto, todo e qualquer esforço espiritual não será dispensável.
Inventadas não se sabe como, por quem ou em que época precisa da História, a rica tradição nos explica, contudo, que eles, os koans, estão inextricavelmente ligados ao budismo e, de modo mais preciso, ao zen-budismo, esta arte religiosa que encontrando leito fértil entre os monges do Tibet, acabou enriquecendo até mesmo a poética ocidental, impregnando-a de uma virtude para além de toda norma.
In-decifra-me ou vos devoro.
- - A lágrima
O discípulo, flagrado em grave crise espiritual, tenta, do Mestre, esconder as lágrimas.
- Há coisas que nos fazem chorar de rir...
E todo se sacudia num pranto convulsivo, incontrolável, num inconvincente esgar de riso, tentando administrar, ao menos frente ao Mestre, o férreo orgulho.
Olhando-o firme, dentro dos olhos, o Mestre, sem esforço verte abundante lágrima, ausente dele, como é comum no Tibet, o mínimo crispar de um só músculo do rosto.
- Mestre, estás chorando?
- Estou, estou sim.
- Mas de quê, Mestre?
- De vosso riso, tão copioso.
- - A sede
Correu por todo o Kinpur a notícia de que um iluminado hindu se encontrava em estado de orgasmo, ininterruptamente há mais de duas semanas, sem comer nem beber, num mosteiro zen próximo a Ayantavar, no sul da Índia.
Benien, jovem monge, recém-admitido entre os andarilhos-pedintes, ordem rigorosa, incapaz de aceitar até mesmo os mais famosos mestres, justamente porque eram famosos e isto, segundo eles, constituía sério empecilho, pediu permissão para uma viagem a Ayantavar, com o exclusivo objetivo de conhecer o iluminado.
- Seguirei anônimo e voltarei ainda mais anônimo, Mestre, mas tenho para mim que poderei arrancar do sábio o segredo de seu espantoso orgasmo.
- E para que aspiras a tamanho orgasmo, Benien?, lhe perguntou o superior, com um rir de olhos que era pura malícia e sabedoria.
- Ora, Mestre, e alguém por acaso não o desejaria?
- O sábio, Benien, precisamente o sábio com quem tanto desejas ter...
- Como assim?
- Há mais de três dias que o iluminado hindu faleceu para esta encarnação, Benien.
- Morreu? De quê?
- De sede, Benien.
- - As sombras
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- Mestre, por que o Avatar Supremo permite a morte, muitas vezes horrível, das crianças da Terra?
- Porque não é o Avatar Supremo que a autoriza.
- Quem autoriza, então?
- A morte só mora onde reina a sombra do coração humano.
- E então, por isso, o Avatar Supremo, está isento de culpas?
- Culpa Ele tem, mas só uma: a de ter criado o coração humano.





