Um dia, um gato
Arquivo FolhaOs nomes variavam - Buja, Bugildi, Bugenildo Bibi, Bugilzo - anchas palavras para designar um gato mais que gordo, senhor do colo e das carícias de toda a família, várias vezes confundido com ‘‘gata prenhe’’, o que não era em absoluto, e - por nossa boca - protestava, toda vez que isso ocorria. O nome mesmo, oficial, era Mik, o siamês que por oito anos nos ninou a solidão baldia e que agora morre a sua morte pequenina na clínica do Cabral, e nos deixa, batidos, num desamparo que dá nojo.
Comigo, em particular, viveu noites e noites de ‘‘escritas e pedregulhos’’, para lembrar Eliot, um poeta empenhado em desvendar, dos gatos, o mistério que carregam em si feito uma filosofia. Imperial, os olhos azuis, felinamente sentado, era como se indagasse, na hora mais sozinha, o que é que tanto escrevia, em frente à máquina luminosa, este ser esquizo que se dizia seu dono quando, todos sabíamos, nós é que soberanamente lhe pertencíamos.
Foi gato aferrado às suas gatimanhas e felinuras, e, mesmo velho, aprontava graças indizíveis, sugerindo um filhote lúdico e de inquieto bulício, e era gato, sobretudo, capaz de pedir, com diversas modulações de miados, códigos que de imediato decifrávamos, do cobertor à sardinha, da ração à porta que exigia aberta para que entrasse e saísse de casa, ao seu gosto e arbítrio, pelas madrugadas do arrabalde. Quantas vezes a porta da cozinha permaneceu a noite inteira escancarada! Também a casa era dele e sobre ela reinava - profundo e de grandes olhos perscrutadores.
Para um zoólatra profissional, como se quer este vosso escriba, não há como um gato para enunciar, de nós para nós mesmos, no mais profundo da noite, a pergunta que insistente pergunta e não se responde - de que natureza o entranhado amor com que nos aferramos a estes bichos feito fosse deles a alma inteira da gente, e, de nossa autoria, o afeto que nunca alcançaram nos comunicar? Amam-nos, sem dúvida, mas de que espécie de amor que não ousamos jamais entender? Amam-se a si mesmos em nós igual que um espelho? Ou só precisam de nós para nos ignorar ainda mais solenemente?
Indagações pueris de um homem já em si propenso à melancolia e que acabou de perder o seu bicho de estimação e que passeia agora na noite a sua solidão mais sozinha, esta mesma que nos faz a todos, eu e você, amoroso leitor, iguais em nosso inextricável abandono de seres que caminham, com inocência de bois, para a morte. Nem só isso é a vida - diriam os menos pessimistas, mas também ‘‘isso’’, admitamos, é a vida - por vezes difícil caminho palmilhado a caco e cristal.
De que incontornável drama beirando a pieguice, um gato morto e seu dono, talvez impliquem os ‘‘durões’’ e os insensíveis, os dito ‘‘ácidos’’ e os ‘‘realistas’’, mas o que há vibrando no silêncio que a falta trama, muito além que um gato, é a aguda consciência da vida provisória. Gatos, cães, periquitos ou papagaios, não importa, o sentimento sem rumo é o da impermanência das coisas e de seu mortal destino.
Buja, Bugildo, Buginildo Bibi, por mais que eu me infantilize e grite para a noite que um gato não há mais, e que ao mundo fará falta a sua redonda graça peluda, indiferente aos meus reclames de homem posto à deriva, a noite nada responde e segue em sua sonatina de estrelas - desde sempre como se fora a primeira vez.
Um gato, senhores, é bem mais que um gato se em exclusivo o anima a saudade no coração de um homem.

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