Os Kennedy, as Moiras e os romanos
ReproduçãoA revista francesa vem com um dado surpreendente - famílias ‘‘trágicas’’, a exemplo dos Kennedy, eram mais comuns do que se supunha também entre os Césares da antiga Roma. Claro, o assunto rende - objeto de exploração, aquele tempo, de escribas sequiosos do que o epigramista Marcial chamava de ‘‘os cadáveres e os ossos’’ e, em nossos dias, da mídia voraz que nos circunda e escalpela.
Poder e tragédia parecem constituir o binônimo perfeito para ‘‘explicar’’ o que o grego antigo debitava às ‘‘moiras’’, entidades mitológicas ‘‘responsáveis’’ pelo destino humano, e tanto mais sofisticadas quanto mais sofisticados fossem os protagonistas de semelhante destino. As moiras, portanto, - chamadas ‘‘parcas’’, pelos romanos - tinham, de escravos a reis, e de reis a reis dos reis, a existência nas mãos, feito um jogo, de ordinário lascivo, e frente ao qual, às vezes cruéis, imprevisíveis sempre, tripudiavam.
Lembra a revista um quase obscuro Cícerus Augustus, também chamado O Coxo, notário bizantino de larga influência no reinado de Rômulo Augústulo, o último imperador de Bizâncio (cerca de 436 da era cristã), como tendo grafado em toscos pergaminhos não só o que, de trágico, já havia acontecido à família Augústulo naqueles rumorosos anos, mas arriscando-se a prever novas investidas das Moiras sob a égide do destino aziago.
Três vaticínios o notário romano acertou em cheio, mas bastou errar um para ser atirado à cova dos leões - prevendo a morte no mar da rainha-mãe Eliodora de Trácia, em viagem para Rodes, Cícerus publicou largamente pelo reino este presságio, mas Eliodora de Trácia foi e voltou da Grécia, sã e salva, e o que é melhor - completamente curada de insidiosa psoríase, depois de banhos de ervas ministrados por um tal de Elisteu, médico desconhecido e que, mesmo assim, a História registra com gozo de minúcia. Ainda hoje não se sabe a cura da psoríase mas, para Elisteu, o mundo não tinha mistérios.
A crer na publicação francesa, a família Augústulo, com exceção de Eliodora de Trácia, que morreu com cem anos - trazendo-nos exemplarmente à lembrança a matriarca Rose Kennedy, que viveu mais de um século -, todo o tipo de tragédia se abateu sobre seus mais destacados membros - tirando o imperador bizantino que, parece, morreu em batalha, o que, para os romanos, era como morrer na cama, a sucessão de infortúnios e desgraças sugere ter apanhado os Augústulo para brinquedo.
De assim, dá a crônica que o filho mais velho do monarca, o belo Siberinus Augústulo, morreu esmagado por grande pedra ao vistoriar algumas edificações em Cápus, próximo de Nápoles, e, tragédia das tragédias, indo a buscar o corpo do irmão, Anatelius Augústulo, o caçula, pasmem!, não teve sorte diferente - morreu, acreditem, esmagado pela mesma pedra, logo depois desta ser levantada de sobre os despojos do jovem Siberinus. Numa sucessão de reis e notáveis, quase ninguém escapou, entre os Augústulo, restando a morte natural só para a velha Eliodora, tendo outras eminências da família perecido em naufrágios, homicídios (nove Augústulos foram assassinados!), envenenamentos, acidentes com bigas e suicídios (dois Augústulos - Romílius e Roscianus).
Em razão desta e de outras é que no império de Rômulo Augústulo dirigir qualquer pedido de proteção aos Céus, em razão de empreitadas arriscadas, sem antes iniciar a petição invocando amparo igualmente aos ‘‘divinatus Augústulo’’ (não nos esquecendo de que ‘‘divinatio’’, em latim, quer dizer também ‘‘adivinhação’’, e por extensão, presságio...) era condenar-se à mesma sorte deles. Claro, ninguém a desejava.
Face à nova tragédia que se abateu sobre os Kennedy, imperadores de outro império, não seria excessivo, de agora em diante, ao invocarmos a proteção dos Céus, a exemplo do romano antigo, pedirmos também um pouco por eles, estes divinizados senhores da América.

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