Wilson Bueno
Novas Estrelas do Céu
À entrada da bela Alcalá de Henares, berço de Miguel de Cervantes Saavedra, o autor do Quixote, o forasteiro é surpreendido por inquietante inscrição encimando o portal que dá acesso à cidade: Aqui você sentirá com os olhos o sonho celeste. Intrigante, em todos os sentidos, a frase se dá em espanhol e em árabe. Mais de um viajante passou por ela despercebido, o que é um crime, pois, reza a lenda, não há cidade no mundo mais apta para que, desde o seu ponto culminante, a Montaña Señora, se admire o céu.
Não há ver estrelas, já alertava o poeta antigo, senão ouvi-las com as cordas do coração. Olavo Bilac, nosso insopitável parnasiano, foi daí que compôs o verso imortal, posto que já sabia - estrelas são pura música, ora direis ao vislumbrá-las.
Na semana, o porta-voz da Universidade de Princeton, em New Jersey, EUA, revelou, para gáudio de quem espreita estrelas com o fim de ouvi-las, que um novo tipo de objeto celeste, menor e mais frio do que as famosas anãs marrons e bem maiores que os planetas gigantes, acaba de ser descoberto pelo Sloan Digital Sky Survey, engenhoca monumental que sistematicamente mapeia o céu noturno.
As Mil e Uma Noites, possivelmente o maior tesouro literário da Humanidade, dá que no século IV um sultão do Maghreb passou duzentos mil dias acordado, o que é um cálculo inverossímil, perscrutando com um objeto de mão, que olhava por ele, o inumerável céu norte-africano. A crer na teia de Xerazade, a contadora de histórias, o sultão, um certo Al-Rachid el Al-Akbar , contou nada menos do que setecentos e sete mil e trezentos e trinta e sete estrelas enquanto lhe duraram os dias (e as noites) insones. Antes de morrer, em sua última hora de observador sideral, fez questão de destacar o que mais o impressionara na ingente aventura - o crocitar que estrelas fazem quando piscam e fulgem...
Jamais poderia supor, nem por Alá, que ao final deste nosso violento milênio, uma máquina fabulosa, toda de aço e enredada de chips, fizesse, pelos homens, o trabalho de investigar do céu o que vai nele de estrepitosa bulha. No silêncio do laboratório de New Jersey, neste julho de mil novecentos e noventa e nove, o Sky Survey (Pesquisa do Céu, ora direis...) não só vem contando estrelas uma a uma, como, o que é mais fascinante, descobrindo-as, com um empenho de máquina incansável.
Segundo o porta-voz de Princeton, há dúvida de que os objetos celestes descobertos na semana sejam, de fato, estrelas, pois, cousa espantosa, tomaram-lhe a temperatura, isso mesmo!, e chegaram à conclusão de que são muito frios para ser chamados estrelas. E o som que emitem é som nenhum senão, como no alexandrino célebre, o som seu de esconso, mais que gélido silêncio. Consumir alexandrinos, célebres ou desconhecidos, é fácil; difícil é sustentar no olhar o silêncio estelar dessas jornadas astrônomas.
Terá Miguel de Cervantes Saavedra escalado a difícil Montaña Señora, sequioso do céu, dias antes de iniciar, naquele ano da graça de 1602, aos 55 anos de idade, o primeiro capítulo do Quixote? Pois o que são as venturas e desventuras do engenhoso fidalgo e seu escudeiro Sancho Pança senão um sonho sonhado vivo, sonho celeste, como quer a inscrição que os viajantes lêem à entrada de Alcalá de Henares? Certo refere o céu, mas não só ele capaz de sonhar, com rumor de noite calma, um sonho assim de incalculável estrela.





